Milagres Explicados
Leis Naturais
Ao observar o universo notamos ele não funciona de maneira caótica, sem regras, imprevisível, aleatória, pelo contrário, existem leis e tudo no universo funciona, ao que parece, de acordo com essas leis: gravidade, conservação do momento, leis do movimento, da inércia, etc, etc.
É verdade que o Princípio da Incerteza na Mecânica Quântica trata da imprevisibilidade de alguns eventos, mas deve-se lembrar que esses são microscópicos e também estamos aqui no limite do conhecimento humano, de maneira que é mais prudente não generalizar demais neste tópico. Afinal, se o Princípio da Incerteza fosse aplicável a planetas, nós não estaríamos aqui. [1]
Premissa 1: os fenômenos naturais funcionam de acordo com determinadas leis.
Numa primeira observação já é possível notar fenômenos de diferentes complexidades. Como exemplo de um fenômeno simples podemos citar uma pedra caindo no vácuo, estando sujeita somente à ação da gravidade, é bem fácil prever seu movimento, posição, velocidade, tempo de queda. Teremos um fenômeno mais complexo ao realizar o experimento no ar, em condições realistas. Neste caso, com o auxílio da aerodinâmica, ainda seria possível fazer várias previsões, mais ou menos precisas. Na outra ponta temos fenômenos extremamente complexos e difíceis de prever/modelar por dependerem de um número imenso de variáveis, como por exemplo, o clima.
A Teoria do Caos tenta explicar o funcionamento desses fenômenos complexos ou sistemas dinâmicos complexos. Na prática esses fenômenos são considerados, até o momento, imprevisíveis, com a tecnologia atual. Teoricamente seria possível prevê-los com precisão com modelos matemáticos cada vez mais precisos e complexos. Assim, o que parece ser aleatório é, na verdade, pseudo-aleatório. Assim, assumimos que os fenômenos complexos são teoricamente previsíveis e o serão na prática quando nossa tecnologia puder identificar e controlar todas as variáveis envolvidas.
Veja que não se trata de uma re-edição da Teoria das Variáveis Ocultas mas apenas uma questão de tecnologia insuficiente, ou seja, nossa conhecimento ainda não atingiu o estágio necessário para determinar e controlar todas as variáveis de um fenômeno complexo.
Façamos o seguinte experimento mental: Imagine-se um carro estacionado numa garagem a um metro de uma parede. O carro é empurrado, lentamente por uma pessoa, até bater na parede, tendo como resultado um pequeno amassado no para-choques e uma pequena trinca no cimento da parede. Se for possível conseguir um carro e uma parede idênticos e reproduzir o experimento mantendo-se constantes todas as variáveis envolvidas, então, teoricamente, o resultado seria exatamente o mesmo, um amassado e uma trinca idênticos. Não existe razão para se supor que não seria assim, visto não se tratar de fenômeno quântico. (Experimento 1)
O método científico parte do princípio da imutabilidade dos processos da natureza ou “o princípio da uniformidade da natureza”, como o denominava o filósofo Karl Popper. Se experimentos simples são reprodutíveis, e experimentos de complexidade crescente também são reprodutíveis, podemos, por indução, inferir que experimentos extremamente complexos também sejam reprodutíveis. Sendo assim, temos a
Premissa 2: dois experimentos idênticos produzem resultados idênticos.
Milagres
A maioria dos eventos classificados como milagres são as curas “inexplicadas” e acidentes graves com sobreviventes. Isso posto, podemos definir milagre como sendo um fenômeno complexo com um resultado favorável a alguem. Note-se que do universo de eventos de todos os acidentes possíveis, são considerados milagres apenas os que resultam em benefício de alguem. Fenômenos similares com resultado desfavorável são colocados na categoria do “deus quis assim”.
Façamos um outro experimento mais complexo: desta vez um carro a 120 km fica sem controle, capota várias vezes e mesmo assim o motorista sai ileso - resultado este popularmente chamado de milagre. Este evento é muito mais complexo que o Experimento 1 pois envolve uma infinidade de variáveis. Porém, se formos capazes, teoricamente, de reproduzir esse evento mantendo todas as variáveis idênticas (carro idêntico, mesmo local, mesma velocidade, etc, etc, etc) obteremos o mesmo resultado. (Experimento 2)
Mesmo que esses fenômenos complexos sejam considerados aleatórios por hipótese, é fácil demonstrar-se estatisticamente que se um evento é repetido muitas vezes, a probabilidade de ocorrer pelo menos um resultado favorável tende a 100% [2]. Em outras palavras, com inúmeros acidentes ocorrendo todos os dias, o número de eventos tende a infinito e a probabilidade de pelo menos um resultado favorável tende a 100%.
Façamos um último experimento mental: vamos jogar 100 bebês do 3º andar de um edifício. Quantos sobreviveriam? Uns dois, talvez três? Será que em n repetições do experimento a taxa se manteria equivalente? Será que em n repetições do experimento eu aprenderia uma maneira de lançá-los de tal modo a obter uma determinada taxa de sobrevivência, manipulando assim os eventos? (Experimento 3)
Conclusão
Se fenômenos naturais funcionam de acordo com determinadas leis (prem. 1) e dois fenômenos idênticos produzem resultados idênticos (prem. 2) então um evento que produz um determinado resultado qualquer não é um milagre, mas apenas um fenômeno complexo, um evento pseudo-aleatório [3]. Um resultado idêntico poderia ser obtido repetindo-se o experimento com todas as variáveis constantes, e por outro lado, obter-se-iam resultados diferentes manipulando-se as variáveis.
Quando Arquimedes disse “dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo“, sabemos que, mesmo que não seja factível na prática, ele estava certo em teoria. Então posso dizer, sem nenhuma pretensão: dê-me todas as variáveis de um fenômeno complexo e eu produzirei um “milagre”.
[1] - Menciono aqui estas teorias apenas porque é comum que sejam citadas em argumentações contra o determinismo. O determinismo é real, porém a cadeia de eventos pode ser influenciada ou alterada pela vontade e pelo livre-arbítrio. Assim, deve-se entender o determinismo como uma tendência em potencial e não como uma força absoluta.
[2] - Seja p a probabilidade de um evento qualquer, na forma p=1/k. A probabilidade de pelo menos um resultado favorável em n ocorrências é:

[3] - Para quem gosta de Cálculo Proposicional:
L: x funciona de acordo com leis naturais;
R: x é reprodutível;
M: x é um milagre;
| 1. Vx(Lx → Rx) | prem 1 |
| 2. Vx(Mx → ~Rx) | prem 2 |
| 3. Lx → Rx | 1 I.U. |
| 4. Mx → ~Rx | 2 I.U. |
| 5. ~~Rx → ~Mx | 4 transp. |
| 6. Rx → ~Mx | 5 dup.neg. |
| 7. Lx | prem aux |
| 8. Rx | 3,7 M.P. |
| 9. ~Mx | 8,6 M.P. |
| 10. Lx → ~Mx | 7-9 ded. |
| 11. Vx(Lx → ~Mx) | 10 G.U. |
Ver também: Apostila de Cálculo Sentencial e Cálculo de Predicados.
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