Alma e Vida após a Morte
Este artigo procura analisar de maneira resumida a natureza/existência da alma e a possibilidade de “vida” após a morte.
Antes de conjeturar a existência da alma e o que acontece com alguém após a morte, se faz necessário definir e investigar conceitos e entidades que são essenciais em tal análise, como consciência, vida, alma.
A Consciência
A consciência [1] é uma qualidade da mente que inclui capacidades como subjetividade, auto-consciência e a habilidade de perceber a relação entre si próprio e o ambiente. Com a consciência temos o poder de perceber a existência do mundo e a nossa própria existência como indivíduos.
Para efeito deste artigo consciência e auto-consciência serão tratadas como algo unitário.
Pesquisas a respeito da consciência revelaram duas importantes descobertas:
- alguns animais aparentam possuir auto-consciência; [2]
- crianças pequenas (menores que 15-20 meses) não aparentam possuir auto-consciência; [3]
Esses resultados levam à conclusão de que a auto-consciência surge / se desenvolve conforme o cérebro aumenta em complexidade, ou seja, o cérebro adquire auto-consciência quando ultrapassa um limiar na complexidade das conexões nervosas e do aprendizado e, portanto, a auto-consciência é uma função cerebral. Assim, a consciência é um estado que surge (acontece) quando existem condições para isso. Como analogia podemos compará-la a um motor em funcionamento: trabalho, rotação, força, torque acontecem quando o motor funciona; estas cessam quando deixam de existir condições para o funcionamento do motor (término do combustível, defeito mecânico, etc). Sendo assim, não cabe a pergunta “para onde vão as rotações do motor quando ele pára?”, pois elas não vão, elas simplesmente cessam, deixam de existir. Similarmente, algum dano cerebral pode fazer com que deixem de existir condições para o acontecimento da consciência. Durante o sono ou o coma reversível, a consciência cessa de maneira controlada, ela pode voltar quando houver condições para isso.
Essa conclusão vai contra teorias[4], baseadas em depoimentos de experiências de quase-morte, que supõem que a consciência é exterior ao corpo e portanto sobreviveria à morte. Se a auto-consciência é uma função cerebral, isso significa que deixará de existir quando ocorrer a morte. As conseqüências desta conclusão são importantes na análise quanto à possibilidade de “vida” após a morte. (A título de curiosidade, uma das conseqüências desta conclusão é a previsão de que a auto-consciência poderá surgir / se desenvolver num cérebro artificial[5]).
O Que Caracteriza o Eu
O que sou eu? Ou seja, o que define “eu” de tal maneira que se algo se modificar eu não seja mais reconhecível aos que me conhecem ou a mim mesmo?
Algumas filosofias afirmam que “nós não somos este corpo”, isto porém não pode ser verdade: a primeira coisa que somos é justamente este corpo. O que eu sou é primeiramente determinado pelo meu DNA, formado por genes de antepassados, em segundo lugar o local, a época e a sociedade onde nasci e cresci. São conseqüências do meu genótipo a minha aparência, meus gostos, minha maneira de pensar.
Em resumo eu sou:
a) Corpo
Construído de acordo com meu DNA, me confere a aparência que tenho. Se tivesse outra aparência teria uma personalidade diferente. Tanto é assim que se um acidente altera o rosto de uma pessoa ela normalmente deve fazer psicoterapia para evitar uma perda de identidade.
b) Memória
Na memória estão minhas experiências pessoais, tudo que vi e aprendi sobre tudo. A história da minha vida também me fez como sou. Se por doença ou senilidade eu perdesse a memória deixaria de ser quem sou, seria um estranho para os que me conhecem.
c) Consciência
Meu DNA e minhas experiências de vida formam minha personalidade e minha individualidade percebidas pela minha auto-consciência. Sem consciência eu seria apenas um vegetal. O “eu” é minha própria consciência. A personalidade também é afetada, e até certo ponto determinada, por substâncias químicas presentes no cérebro, hormônios como o estrogênio e a testosterona, demonstrando que a personalidade é produto do DNA, do corpo, do meio-ambiente. Os sentimentos podem ser gerados e controlados também por substâncias químicas. Pensamentos, raciocínio, sentimentos existem somente enquanto existe a consciência e o cérebro. Toda a atividade mental, enfim, depende da existência de um corpo.
A Alma
Não existe unanimidade no entendimento do que seria alma, de maneira geral existem dois pensamentos:
I) alma seria aquilo que dá vida (anima) à matéria (corpo) - Animus;
II) alma seria algo que se julga continuar vivo após a morte do corpo - Espírito;
Mais adiante serão analisadas as duas hipóteses.
Vida
A vida é normalmente definida como o “fenômeno que anima a matéria”.
Considerando-se que duas células vivas dos pais se juntam para formar uma nova célula também viva, é quase forçoso supor a vida como algo que é transmitido, algo que vem junto com os gametas dos pais. Numa analogia, vida é como a chama que passa de uma vela para outra. Se assim é, vida não é algo que vem de fora e “entra num corpo”. E na morte, a vida, presente em um determinado ser, se extingue. Dessa maneira, não cabe a pergunta “para onde vai a vida”, pois ela simplesmente se extingue, deixa de existir. [6]
Portanto se alma existe, ela não é aquilo que nos dá vida (hipótese I acima).
Vida após a Morte
Quando eu morrer meu corpo será destruído, nenhuma dúvida quanto a isso. Se parte do que sou desaparece isso significa que na eventualidade de existência de algo após a morte eu não serei eu integralmente.
A memória, embora ainda não se conheça seu completo funcionamento, é uma função cerebral, nesse caso também será destruída com a destruição do cérebro.
A consciência, conforme visto acima, também desaparecerá com a morte, e portanto também desaparecem pensamentos, raciocínio, sentimentos.
O desaparecimento do corpo, da memória e da consciência significa o desaparecimento do “eu”. Nada do que compõe o “eu” restará. Neste caso, sendo a alma, por definição, algo que resta após a morte, seja lá o que ela for, não será eu (hipótese II acima).
Conclusão
Alma não é vida, o que anima a matéria; não é a consciência; nem raciocínio, pensamento, sentimentos, personalidade. Não se identifica nada que pudesse se chamar de alma [7]. Ou tal coisa não existe ou, se existe, esta não sou eu, pois como foi visto, eu sou minha consciência e meu corpo.
Não se pode afirmar, até o momento, que não existe nada após a morte, porém tudo indica que é esse o caso. Mas é fato que, mesmo que exista algo após a morte, sem a consciência não há a individualidade e nem existência. Se o “eu” não existir, é o fim de tudo, ao menos para o “eu”. Portanto, para todos os efeitos, a morte é o fim.
Notas
[1] - Sobre a consciência:
- Wikipedia (em português)
- Wikipedia (em inglês)
- A simple theory of consciousness
[2] - Experiências sobre consciência em animais:
- Psychology 391D: Scientific Studies of Consciousness
- Animal Minds
- Animal Consciousness
- Consciousness in Animals and People with Autism
- Animal Consciousness (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
[3] - Experiências sobre consciência em crianças:
- Perceiving You Perceiving Me:
Self-Conscious Emotions and Gestalt Therapy
- Self-conscious behavior of infants: A videotape study
- I’m Embarassed!
- Self Development and Self-Conscious Emotions
- Pesquisa Google
[4] - A consciência e os experimentos de quase-morte:
[5] - Sobre Inteligência Artificial
- Haikonen’s cognitive architecture
- “Robôs terão inteligência humana em alguns anos”
- “Cientistas criticam proposta de direitos para robôs”
- Pesquisa Google
[6] - Sobre o início e o fim da vida
- Quando começa e quando termina a vida?
- Miller-Urey experiment
- The Miller/Urey Experiment
- The Origin of Life
- Pesquisa Google sobre “Miller Urey experiment”
[7] - A utilização do termo “alma” com o mesmo significado de vida (spiritus / πνεύμα / βιος) ou com o mesmo significado de mente/consciência (anima / ψυχή / nous) é desnecessária e só aumenta a confusão.
Quem quiser desenrolar o spaghetti dos termos pertinentes ao assunto pode começar por aqui: soul, spirit, mind, anima, νούς, πνεύμα, ψυχή, psyche, glossary of stoic terms.
“Não há nada que conduza à verdade. Temos que navegar por mares sem roteiros para encontrá-la” - J. Krishnamurti
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Quinta-feira, 1 / Maio / 2008 em 00:09
muito bom o texto, super objetivo e racional
Quinta-feira, 1 / Maio / 2008 em 09:57
Obrigado, Julia!
Abraço
Segunda-feira, 9 / Junho / 2008 em 00:10
Ola Tyrannosaurus, eu sou o Tupac do Portal do Criador (nada a ver com religião, é que o dono do portal inicialmente usaria o site como petshop virtual hehe), bem, eu estava em um debate sobre a existencia de provas cientificas da reencarnação e o oponente me apresentou casos estudados por um professor de psiquiatria da Universidade de Virginia chamado Ian Stevenson.
Stevenson pesquisou mais de 2.000 casos, no geral, de crianças que assim que desenvolvem a fala relatam experiencias supostamente oriundas de vidas passadas, tais como nomes de pessoas, locais, fatos ocorridos, e em alguns casos apresentando cicatrizes no mesmo local onde a suposta vida anterior tenha se ferido de forma fatal ou que estava relacionada a morte da pessoa.
Procurei por refutações e não encontrei muita coisa relevante. Claro que foram feitas diversas objeções a essas “comprovações” e assim diminuiu-se muito o numero de mais de 2.000 casos para duas ou tres dezenas, resumindo, existem alguns casos onde (supostamente) existe a evidencia de que a consciencia do individuo sobreviveu a morte. Eu sou cético quanto a esses casos, gostaria de saber a sua opinião a respeito. Você conhece refutações, ou qualquer coisa do meio cientifico referente a este assunto? (preferencialmente em portugues, pois não tenho conhecimento suficiente de ingles hehe)
Enfim, se desejar, pode me enviar sua resposta por mensagem prrivada la no forum do portal do criador, ja que você tem uma conta la hehe.
Desde já muito obrigado.
Segunda-feira, 9 / Junho / 2008 em 17:41
a morte é o fim de tudo não existe alma indo para o céu
Domingo, 29 / Junho / 2008 em 20:27
Você é espiritualista? Senão porque da frase do Krishnamurti?
Segunda-feira, 30 / Junho / 2008 em 10:34
Olá Rafael
Não sou espiritualista nem possuo qualquer religião. Mas considero a frase uma verdade, no sentido em que não há um caminho traçado, já pronto, para a Verdade, como alegam alguns, mas devemos procurá-la por conta própria, “por mares desconhecidos”. É isto que venho tentando fazer, buscar a Verdade; e os resultados (parciais?) dessa busca tenho colocado aqui neste blog.