Vários séculos atrás as viagens de navio levavam vários meses e eram muito perigosas. Nessa época mulheres não eram bem-vindas nos navios. Imagine-se homens rudes, freqüentemente bêbados por vinho ou rum, trancados num navio durante meses com uma mulher a bordo… não podia acabar bem.
Mulheres em navios dão azar
O problema era como convencer os marinheiros a não trazerem mulheres para bordo clandestinamente ou evitar que ficassem entusiasmados com a presença de eventuais passageiras. Ao que parece alguém teve a brilhante idéia de espalhar o boato de que mulheres em navios davam azar [1]. Dessa maneira torna-se desnecessária uma fiscalização e controle da norma pois os próprios marinheiros se encarregavam disso – tornava-se interesse deles.
É uma maneira eficiente de se utilizar da própria ignorância dos marinheiros, que são extremamente supersticiosos [2], sem perder tempo com explicações que provavelmente não serão compreendidas ou obedecidas.
Com a prima não… é pecado! (Levítico 18 )
É bem provável que diversos povos antigos já tivessem percebido a milênios que relacionamentos entre parentes próximos têm uma probabilidade maior de gerar filhos com defeitos congênitos. Só não sabiam porquê – talvez castigo divino. O problema era como passar esse conhecimento aos mais jovens sem ter que explicar as causas, que lhes eram desconhecidas. Uma maneira simples de resolver esse problema e garantir que os jovens seguiriam o ensinamento mesmo sem saber porque, era dizer que aquilo era “pecado” ou “desagradava aos deuses” e assim criar um tabu. O importante era evitar que isso acontecesse para segurança da prole, da sua família e, em última análise, da nossa própria espécie.
Não é diferente da mãe que pega uma criança fazendo algo reprovável na sua opinião, a repreende e diz que aquilo não deve ser feito mas não explica as razões porque (1) a criança é pequena demais para entender ou (2) nem ela mesma sabe exatamente porquê.
O mesmo princípio é utilizado quando, por exemplo, uma mãe diz a uma criança que não deve mexer no armário pois lá mora um monstro. Pequena demais para entender o perigo dos objetos lá contidos, é mais fácil assustá-la com essa ameaça. À parte ser um método reprovável, o fato é que dá bom resultado.
Convenientemente treinada para ser “temente a deus”, a criança chega à adolescência mais facilmente manipulável e agora já basta dizer que algo é pecado para mantê-la sob controle.
O conceito de pecado é útil quando não se quer ou não se sabe explicar as razões pelas quais algo deve ou não ser feito. Segundo o raciocínio de que “os fins justificam os meios” tem-se assim a garantia de que o que é certo será feito e o que é errado não será feito, ainda que por razões tortas. Os mais velhos podem assim evitar que os mais jovens repitam erros do passado mesmo que não saibam explicar o porquê das coisas. Passar o tabu adiante para as novas gerações é uma maneira simples e prática de evitar erros, passando adiante o conhecimento adquirido ao longo do tempo. Neste estágio primitivo do conhecimento qualquer questionamento deve ser evitado pois as razões são desconhecidas, só se sabe que deve ser assim.
Logo sacerdotes e governantes percebem o eficiente método de controle que é o conceito de pecado e o subvertem em benefício próprio aumentando arbitrariamente o número de regras para obter mais controle e poder [3]. O que não chega a ser nenhuma surpresa em se conhecendo a natureza humana.
Dessa maneira tem-se dois tipos de pecados:
1) os que procuram justificar regras que devem ser seguidas enquanto as causas ainda não são conhecidas, ou são conhecidas mas se quer evitar questionamentos;
2) os que visam criar regras arbitrárias para controle das pessoas;
Os do segundo tipo só são viáveis porque existem os do primeiro tipo. Ou seja, utilizar-se do conceito de pecado para educar crianças produz pessoas facilmente manipuláveis. Para se acabar com esse tipo de manipulação arbitrária deve-se antes acabar com o conceito como um todo.
No exemplo citado é fácil provar-se que não se trata de pecado. Se relacionamentos consangüíneos fossem pecado o resultado sempre seria filhos com defeitos – o que não acontece, apenas tem-se uma probabilidade maior de que isso aconteça. Assim, ou (1) deus é incoerente (às vezes pune, às vezes não) e injusto (pune inocentes pelo ato de outros) ou (2) simplesmente não é um pecado.
Com o avanço do conhecimento humano as causas passam a ser conhecidas e o conceito de pecado não deveria mais ser necessário. No exemplo citado acima, a genética já respondeu porque relacionamentos consangüíneos deveriam ser evitados. Sendo assim, lançar mão do conceito do pecado, monstros e similares é útil porém condenável, simplesmente por serem mentiras – mentir, ameaçar e assustar não são uma boa maneira de se educar crianças.
Em resumo, o conceito de pecado é uma solução útil, simples e prática de passar adiante o conhecimento adquirido empiricamente ao longo do tempo em sociedades primitivas que ainda não dispõe do conhecimento necessário para explicar fenômenos naturais e conceitos éticos.
A Bíblia
Esse é um ponto importante a ser notado, as regras nas quais o conceito de pecado é utilizado são regras morais, regras de comportamento social. “Não roubarás, não matarás, não cobiçarás a mulher do próximo” são regras de convivência social, cuja desobediência poderia inviabilizar a vida em sociedade. A Bíblia, além de lendas épicas misturadas com acontecimentos locais, traz um código moral. Mas a moral é relativa, em primeiro lugar só tem importância para nós e nenhuma para o Universo, em segundo lugar a moral muda de pessoa para pessoa, de povo para povo, muda no espaço e no tempo. A código moral bíblico é válido para um determinado povo vivendo num determinado local numa determinada época. Somente a vaidosa e tosca mentalidade humana poderia crer na existência de um deus tão fútil que se preocupa com nosso comportamento. Nosso comportamento só é importante para nós, para nossa sobrevivência em sociedade. Afinal, nossos tão decantados preceitos morais, dos quais nos orgulhamos a ponto de tê-los como inspiração divina se tornarão poeira, assim como nós [4], quando deixarmos de existir; nunca foram nem nunca serão nada para o Universo, assim como nós [5].
“É difícil libertar os tolos das amarras que eles veneram.” – Voltaire
Notas
[1] – A origem da crença pode ter sido acidental e não proposital, mas dá no mesmo: vem bem a calhar.
[2] – Eu disse “são” e não “eram”. Ainda hoje marinheiros são supersticiosos. Há pouco tempo assisti a um documentário onde o capitão norueguês de um moderno transatlântico explicava à equipe de reportagem que não se deve assobiar na ponte pois isso atrai tempestades. Alguém arrisca uma explicação porque é conveniente convencer os marinheiros a não ficar cantarolando na ponte de comando de um navio?
[3] – A técnica pode chegar a extremos de um terrorismo psicológico. Por exemplo, existem algumas religiões que se esforçam em convencer o crente de que está rodeado de símbolos satânicos e complôs que visam desviá-lo do “caminho do bem”. O objetivo é aterrorizá-lo fazendo com que se torne totalmente dependente de sua religião, devendo consultar seus sacerdotes para tudo, e desconfiando de tudo e todos que não pertençam à mesma religião – assim diminuindo o risco de apostasia.
[4] – Nisso a Bíblia tem razão… “do pó viemos e ao pó retornaremos” (Gênesis 3:19) – Nós somos pó das estrelas.
[5] – Para compreender nosso real valor no Universo é recomendável o estudo da Astronomia.
Alguns links:
NASA
International Astronomical Union
Maps of Planets
Visible Earth Maps & Satellite Pics
Earth from Space
The Universe Adventure
Atlas of the Universe
Space.com
Space / Astronomy (About.com)
As Leis da Natureza
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Quinta-feira, 31 / Julho / 2008 às 08:35 |
Tremendo texto.
Parabéns de novo.
Quinta-feira, 31 / Julho / 2008 às 08:36 |
Porque é perigoso ficar cantarolando na ponte do navio?
Quinta-feira, 31 / Julho / 2008 às 10:23 |
Obrigado de novo, Rafael
Quinta-feira, 31 / Julho / 2008 às 10:46 |
Por que é perigoso ficar cantarolando na ponte do navio?
Ah, bem… se eu estivesse num navio gostaria muito que os marinheiros que o controlam estivessem bem concentrados no trabalho, aliás, com toda sua atenção voltada ao trabalho, ao invés de estarem distraídos, pensando na namorada que ficou no porto, cantarolando aquela canção que tocava quando eles se beijaram e… como se chamava mesmo? Ops… demos uma batidinha num iceberg!
Segunda-feira, 18 / Agosto / 2008 às 08:39 |
Gostei! Os pecados e essas “leis divinas” são importantes, de uma maneira, pois dão regras, como para as crianças mesmo. Mas nós não somos crianças…O que as religiões fazem é nos tratar como crianças.
Bom texto.
Segunda-feira, 18 / Agosto / 2008 às 12:15 |
Olá Bia
Verdade, as religiões nos tratam como crianças; curiosamente o governo também…
Abraço
Sexta-Feira, 29 / Agosto / 2008 às 14:54 |
Excelente texto.
Parabéns
Sexta-Feira, 29 / Agosto / 2008 às 15:48 |
Obrigado, Luiz Cláudio
um abraço
Domingo, 6 / Setembro / 2009 às 22:18 |
Fiquei muito impressionado com este site maravilhoso,foi a minha primeira vez mas vou voltar sempre que tiver vontade de ler verdades.
Segunda-feira, 7 / Setembro / 2009 às 15:06 |
Obrigado, Jurandyr!