Ou… Descrença é Crença?
Vemos com freqüência a afirmação de que o ateísmo é uma crença e também de que as pessoas “crêem na ciência” da mesma maneira que os crentes crêem na sua religião. O erro é tão comum, principalmente na blogosfera (até mesmo entre os céticos), que o assunto merece um tratamento particular.
Esse mal-entendido é provavelmente causado por um conjunto de razões:
1) o múltiplo sentido do verbo “acreditar” que leva a uma incompreensão do que é crença;
2) uma má compreensão do que é a ciência e como funciona o método científico;
3) dificuldade de compreender a ausência de crenças;
4) desejo de equiparar crentes e descrentes como tentativa de anular as críticas destes àqueles;
Comecemos pelo dicionário, vejamos o que diz o Aurélio…
Semanticamente
descrença 1
[De des- + crença.] (prefixo des- indica ausência, falta)
1.Falta ou perda de crença; incredulidade.
crer
Verbo transitivo direto.
1.Ter por certo; dar como verdadeiro; acreditar:
“Crê apenas aquilo que a razão explica.”
2.Ter confiança em; aceitar como verdadeiras as palavras ou afirmações de:
3.Julgar, presumir, supor:
“Há cerca de um mês que não o vejo: creio que se mudou.”
Verbo transobjetivo.
4.Julgar, reputar, supor:
Verbo transitivo indireto.
5.Ter confiança; ter fé; dar crédito:
“Creio em ti, Deus” (Almeida Garrett, Folhas Caídas, p. 69)
“Creio na minha Pátria e no meu povo.” (Teixeira de Pascoais, D. Carlos, p. 18)
“O crente evangélico não teme o Purgatório, porque nele não crê” (L. Lavenère, O Padre Cornélio, p. 169).
Verbo intransitivo.
6.Ter fé, ter crença (sobretudo religiosa).
(As definições acima foram retiradas da versão online do Aurélio porém numa forma resumida, sem a maioria dos exemplos.)
A acepção nº 1 pode ser usada em sentido religioso ou não. A acepção nº 5 é mais usada no sentido religioso e a nº 6 é sua versão intransitiva. A acepção nº 3 aumenta a confusão permitindo que “crer” também signifique “supor”. Pelos exemplos vê-se que a mesma acepção do verbo é usada tanto para se dizer “creio em deus” como “creio na pátria“. Filosoficamente são coisas diferentes, envolvem posturas, intenções e estados mentais diferentes. Daí a confusão toda.
O dicionário sozinho não é suficiente para esclarecer a questão que, vê-se, ultrapassa os limites da semântica.
Analizemos então por outro ângulo…
Filosoficamente
Em princípio não é possível provar que algo não existe; podemos, no máximo, supor com algum grau de segurança que algo não existe se sua existência violar as leis naturais conhecidas. Porém, é possível provar-se que algo existe por isso o ônus da prova recai sobre quem afirma que algo existe. Portanto, manda a prudência que se permaneça neutro, aguardando provas. Se não fosse assim estaríamos todos acreditando na existência de todas as entidades mitológicas já inventadas e qualquer coisa que fosse dita seria tomada como verdade.
Por exemplo, supõe-se que o Pé-Grande não exista, que seja uma entidade mitológica. É possível, embora pouco provável, que exista um animal ainda desconhecido que tenha dado origem ao mito. A postura mais séria, comedida e responsável é presumir que tal criatura não exista pois não existem provas convincentes da sua existência.
O que é Crença?
Crer, no sentido utilizado pelos que crêem em religiões, significa “aceitar alguma coisa como sendo verdade mesmo sem prova nenhuma”. Tanto é assim que crentes se orgulham de crer sem provas, chamam isso “fé” 2. Crer é desejar que algo seja verdade. O crente deseja tão intensamente que algo seja verdade que passa a fingir que aquilo em que acredita de fato é verdade. Cria fantasias e vive nelas. Por isso o crente não está aberto a provas e rejeita qualquer argumentação contrária ao que deseja que seja verdade.
Por ter necessidade de acreditar o crente permanece teimosamente nas suas crenças e rejeita contestações e mesmo fatos que comprovam que está errado. Essa postura o leva a imaginar que a teimosia do descrente em exigir provas concretas para tudo também tem origem numa crença! Ou seja, pensa “Sou teimoso porque tenho fé. O descrente é teimoso, logo, tem fé”. O erro do raciocínio está no fato de que a fé não é a única causa possível para a teimosia 3.
Se o crente deseja que algo seja verdade é provavelmente porque tem necessidade disso e se tem necessidade é provavelmente porque não consegue aceitar um mundo que não corresponde a suas expectativas. Aparentemente o crente precisa da crença por não conseguir aceitar a realidade como ela é. Existe também outro fator: a inércia. A grande maioria foi criada assim então permanece assim – não há razão para mudar.
O descrente não deseja intensamente que o Pé-Grande não exista, não tem necessidade psicológica de que ele não exista, não precisa que se verifique a sua inexistência para ser feliz, por isso não se verifica uma situação semelhante à anterior; é totalmente incorreto dizer-se que “acreditamos na inexistência de tal criatura” e que, portanto, a postura cética é uma crença – pelo menos enquanto se usa o verbo “acreditar” no mesmo sentido que o religioso. A postura cética é uma postura de quem aguarda provas irrefutáveis e que, agindo assim, defende a verdade.
É como se, incapaz de aceitar a morte como um fato, uma pessoa passasse a negá-la, afirmando que viverá para sempre. Este exemplo provavelmente não se verifica na prática pois é facilmente constatável que a morte é um fato. Alguém que afirmasse que a morte não ocorre seria chamado de louco. Contudo, o exemplo não é totalmente irreal, pois diante da impossibilidade de negar a morte algumas pessoas contornaram o problema inventando uma vida após a morte. Conseguem assim negar a morte. (O ser humano é mestre em distorcer fatos e definições para que se adeqüem a seus desejos!)
É o medo de morrer, o medo do desaparecimento total, que estimula nossa mente a criar fantasias 4 do que poderia ser e, num passo seguinte, passar a ver esse desejo como verdade.
Esse auto-ilusionismo funciona melhor ainda se essa pessoa estiver junto de outras que compartilham os mesmos desejos; tudo fica mais fácil e um dá apoio ao outro, quando um fraquejar na auto-enganação os outros podem ajudá-lo a voltar “para o caminho da fé”. Pois isso é a fé: o desejo intenso de que algo seja verdade. Quanto mais uma pessoa consegue acreditar nas fantasias que criou maior é a sua fé.
Para o crente, o melhor dos mundos seria que todas as pessoas tivessem as mesmas fantasias pois tudo seria mais fácil – uma histeria coletiva. Nesse contexto a existência de pessoas que rejeitam as fantasias do grupo constituem uma ameaça. É provável que muitos crentes, no fundo, saibam que se enganam e a existência de descrentes os lembra disso. Os descrentes podem levar alguns crentes a pensar, se pensarem verão que suas crenças não passam de fantasia; os descrentes os acordam do sonho e os chamam à realidade. “São uma ameaça. Convertê-los é preciso. Combatê-los, se necessário.” Os combatentes, claro, são vistos como heróis.
Crer é fazer das suas fantasias a sua realidade particular. O crente vive num mundo idealizado por escolha própria, tem profunda necessidade disso e, talvez por isso, tenha dificuldade de entender um mundo sem crenças – veja-se por exemplo esta frase colhida de um blog: “Mas não consigo conceber alguém que não tenha uma própria “crença” acerca de uma “força superior”“. Se o crente não entende a ausência de crenças pensará que a descrença é também uma crença. Por outro lado, supor a existência de um deus é diferente de crer num deus, assim como é possível supor-se a existência de um animal que tenha dado origem ao mito do Pé-Grande mas isso não é fé religiosa, é suposição.
Vivendo no mundo das suas queridas e acalentadas fantasias o crente se sente seguro, protegido e feliz. E daí vem sua conclusão de que os que não vivem no mundo de fantasias são infelizes. Mas aqui já entramos no terreno do subjetivo. É possível determinar se algo é verdade ou não mas não se pode determinar se é melhor viver conhecendo a verdade ou viver na ilusão. Isso já é uma questão de preferência pessoal 5.
Aceitar que se vive num mundo de fantasias é algo extremamente doloroso para os crentes pois implica em aceitar que seus pais mentiram, e que eles próprios mentiram a seus filhos, e que todos os seus entes queridos desaparecerão e também eles, e que portanto jamais se encontrarão de novo. A idéia do desaparecimento total e suas implicações é horrível, concordo. Mas se o desaparecimento total for um fato, viver num mundo de fantasia não irá mudar a realidade.
Resumo
| Crente | Descrente |
|---|---|
| Deseja que sua idealização seja verdade | Deseja encontrar a verdade |
| Aceita afirmações sem provas | Exige provas concretas |
| Idealiza o mundo a priori | Descobre o mundo e o aceita como ele é; permanece neutro enquanto isso não ocorre |
| Não aceita contestações | As contestações o ajudam a descobrir a verdade |
| Rejeita fatos que comprovam que está errado | Fatos e provas levam à verdade |
_
O quadro acima resume as diferenças na postura de crentes e descrentes deixando mais clara a diferença entre “crer” e “descrer“.
Conclusão
“Descrença” significa “ausência de crenças” e não “crença na inexistência do objeto da crença”. Afirmar o contrário é, portanto, um erro de raciocínio – uma falácia.
“I maintain there is much more wonder in science than in pseudoscience. And in addition, to whatever measure this term has any meaning, science has the additional virtue, and it is not an inconsiderable one, of being true.”
Carl Sagan
Notas
1) Evitei o uso da palavra “ateísmo” na maior parte do texto por ser este um caso particular de “descrença”.
2) “O que é fé? Fé é ter a possibilidade de crer naquilo que você não vê, porque se você vê deixou de ser fé. Por isso que eu às vezes questiono muito alguns modelos de religião onde tudo é muito explicado, tudo é muito claro, tudo é muito limpo, tudo é muito justificado. Não, a fé ela nasce justamente daquilo que a gente não consegue ver.” – Pe. Fábio de Melo.
“Em Hebreus capítulo 11 diz que a fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê.” – Pe. Marcelo Rossi.
Veja também um curioso argumento circular:
“Pela fé cremos ser verdadeiro o que nos foi revelado por Deus e o cremos não pela intrínseca verdade das coisas, percebida pela luz natural da razão, mas pela autoridade do mesmo Deus que se revela que não pode se enganar, nem nos enganar.” – Pe. Joãozinho (queemm?!) – Mas como sabe que aquilo em que crê pela fé foi de fato revelado por deus? – Pela fé!
3) Para quem gosta de Cálculo Sentencial:
F → T
T
logo F
Trata-se da bem conhecida falácia da “Afirmação do Conseqüente”. Mais detalhes na minha Apostila de Cálculo Sentencial e Cálculo de Predicados (é grátis!
).
4) As causas da religião são um pouco mais complexas e são analisadas aqui.
5) Cabe aqui porém uma discussão ética – temos o direito viver de acordo com nossas próprias convicções; mas até que ponto podemos impô-las às crianças?
Textos Relacionados
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Atheism is Not a Religion, Ideology, Belief System, Philosophy (About.com)
Atheism Myths: Is Atheism a Religion? (About.com)
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Is atheism a religion? (AskTheAtheists.com)
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Is Atheism a Religion? (The Rational Response Squad)
Is Atheism a Belief? (Atheist Foundation)
Atheism is a belief (FreeThoughtpedia)
Is Atheism a Belief System?
Religion of Atheism


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Achei sua abordagem sogre crença bastante esclarecedora.Agora em se tratando do crete religioso,o grande problema é que ele acha que nós ateus temos que suportar as suas ”verdades”a qualqer custo.
Olá, Teodorio
Obrigado!
abraço
Olá,
Texto interessante.
Mas acredito que sua crítica sobre a crença seja uma generalização um pouco injusta.
Por que?
Porque assim como você mesmo falou:
“Em princípio não é possível provar que algo não existe; podemos, no máximo, supor com algum grau de segurança que algo não existe se sua existência violar as leis naturais conhecidas. Porém, é possível provar-se que algo existe por isso o ônus da prova recai sobre quem afirma que algo existe.”
Ao dizer que teístas vivem em um mundo de fantasias e dizer que suas cranças são infundadas, o ônus da prova cai sobre você, e não sobre eles, pois é você que está afirmando que algo não existe, assim como alguém tentando provar que existe.
Veja a diferença:
Alguém querer provar para você que algo existe sem provas é uma coisa.
Outra coisa é querer provar para algúem que algo não existe apenas jogando para ela a responsabilidade de provar aquilo, ou seja, você não prova nada, apenas senta sobre a incapacidade da pessoa de não conseguir provar aquilo.
O ponto é que nenhum dos dois pode provar nada, a única coisa que podem fazer é escolher o que faz mais sentido e respeitar a crença dos outros.
Pegar o singificado da palava “fé” no dicionário não quer dizer que é a explicação correta, pois isso é pessoal, se você perguntar para 1000 pessoas, terá 1000 explicações diferentes.
Não estou defendendo todos dogmas religiosos e etc, eu mesmo acho muitos deles um absurdo, mas sim colocando a perspectiva que a crença é algo muito pessoal, e dar a entender que pessoas que aceditam no que quer que seja são pessoas ignorantes, é tão ruim quanto dizer que quem não acredita em nada é o ignorante.
Por favor não me entenda mal, não quero questionar o fato da pessoa não ser teísta, assim como eu não sou, mas o fato de que não podemos expressar intolerência e nem ridicularizar a crença dos outros como se nós já soubessemos a verdade, quando a verdade é que não sabemos.
Olá, Rafael
Afirmar que alguém vive num mundo de fantasias não é o mesmo que afirmar que algo não existe. Se alguém, por exemplo, “vive num mundo” de fadas, duendes e unicórnios essa pessoa crê que essas coisas existem e portanto cabe ainda a ela provar que existem. Como eu disse eu não posso provar que algo não existe, posso apenas partir do princípio de que não existem caso a sua existência viole leis naturais. Eu posso provar que essas coisas não existem? Não. Essa pessoa pode provar que existem? Também não. Portanto essa pessoa aceita como verdadeiras coisas não comprovadas e pode-se dizer então que vive num mundo de fantasias.
Eu apenas fiz uma constatação: se eles não conseguem provar a existência daquilo em que acreditam então suas crenças são infundadas e fantasiosas.
Mas eu não estou querendo provar que algo não existe. No meu texto tento provar que “crer” é dieferente de “supor” e que “ausência de crença na existência” não é “crença na inexistência”.
Também não se trata de “jogar a responsabilidade sobre alguém”. A responsablidade de provar algo é sempre de quem afirma que algo existe por duas razões: primeiro porque não é possível provar que algo não existe e segundo porque o mais razoável é raciocinarmos sempre dentro da lógica.
Foi o que eu disse. E a escolha do que faz mais sentido deve basear-se na lógica e nas leis naturais conhecidas. Isso é o que faz mais sentido.
Isso é muito bonitinho, muito politicamente correto. Porém se tivermos que respeitar crenças em coisas não comprovadas teremos de respeitar igualmente cartomancia, quiromancia, astrologia, necromancia, bruxaria e qualquer pilantra que fundar uma igreja com propósitos escusos. Existem coisas e pessoas que eu respeito mas o meu respeito não é conquistado assim automaticamente bastando-se para isso declarar que algo é uma crença.
Cada um pode atribuir o significado que quiser às palavras mas temos que ter um padrão ou a comunicação de idéias não será possível. O dicionário é um bom padrão.
Mas qual é o seu critério para decidir se um dogma é absurdo ou não?
Eu não usei a palavra “ignorante” no meu texto. Fantasias são fantasias, são coisas não comprovadas. Classificar alguém que crê em fantasias com algum adjetivo é uma outra história.
Mas de qualquer maneira somos todos ignorantes pois ignoramos (desconhecemos) a Verdade.
Ah, mas não todas as verdades são desconhecidas… algumas são conhecidas! A Terra é “redonda” (arredondada) – é uma verdade conhecida. Alguns crêem que é plana e quadrada, não porque ignorem a verdade comprovada mas porque insistem em não aceitá-la para continuar aceitando como verdade uma fantasia.
Intolerância é crime neste país. Por gentileza aponte em que local do meu texto eu expressei intolerância ou você estará me acusando de um crime que não cometi.
abraço
Olá,
Obrigado pela resposta.
Como alguém pode provar que ouve pessoas que já morreram ou coisas desse tipo? Como algúem pode provar que sonha com Jesus, Alá, etc?
Não vejo como, nem por isso eu posso afirmar que eles estão mentindo, por mais difícl que seja acreditar.
Cai no que falei antes.
Se a pessoa quer provar que aquilo é verdade, mas na verdade não tem provas, concordo com você.
Mas quando a pessoa não quer provar aquilo pra ninguém, é a crença dela, e quem achar razoável é livre para acreditar também, e não podemos negar essa crença, pois como falei, também não temos como provar o contrário.
Faz sentido para você, demoramos centenas de anos para alcanças o nível de conhecimento científico e lógico de hoje, será que já chegamos no limite?
Será que não temos nada mais para aprender? Então o que faz mais sentido agora, amanhã pode não ser bem assim.
É por isso que nosso estado é laico, se a cartomancia, quiromancia, astrologia, necromancia, bruxaria e qualquer pilantra que fundar uma igreja não desrespeitarem as leis e os direitos dos outros, estão livres para seguir com suas cranças. Você acha isso errado?
Sim é um bom padrão, mas uma explicação padrão não explica todos os possíveis entendimentos de uma palavra, pois como você mesmo disse, é uma explicação padrão.
Esse é o ponto, isso é pessoal, acho diversas coisas absurdas, mas não cabe a mim quastiona-las. Claro, como falei antes, desde que estejam de acordo com as leis e os direitos dos outros.
Intolerência nem sempre é crime, é o fato de não respeitar a crença dos outros, mesmo que pacificamente. Veja por exemplo o quadro que você traçou acima.
Todos os teístas não aceitam contestações? Rejeitam fatos que comprovam que estão errados? Aceitam afirmações sem provas? Tem certeza que essa generalização é justa?
Por menor e mais inofensiva que seja a crença da pessoa, ela já se enquadra nesses padrões?
Posso estar errado, pois isso foi apenas a minha interpretação, mas pareceu uma pouco de intolerância, pois não conhecemos todas as cranças possíveis, mais ainda assim nos achamos capazes de enquadra-las como X ou Y.
Não estou querendo “acusa-lo” de nada, até porque este é o seu espaço, ninguém me chamou aqui. Apenas utilizei a crítica como uma forma de tentar mostrar meu ponto de vista. Mas se não consegui me explicar direito ou se o que escrevi realmente não tem cabimento, não vou tentar, e nem acho que conseguiria, fazer você pensar como eu.
Mais uma vez obrigado pela atenção e pelo tempo gasto me respondendo.
Olá, Rafael
Através de restos mortais, fósseis, artefatos datados, documentos, etc. Uma única pista dificilmente prova alguma coisa por isso quanto mais evidências melhor.
Pelo que sei até o momento isso não é possível. Normalmente não haveria razão para provar que a pessoa está mentindo portanto é irrelevante com que afirma ter sonhado. Mas num tribunal, por exemplo, isso não seria aceito como prova porque o sonhador não pode provar o que diz.
Sem dúvida não chegamos no limite, não sabemos tudo, mas podemos e devemos basear nossas decisões no conhecimento atual. Mas já sabemos várias coisas, por exemplo, que a Terra é arredondada. Portanto acreditar que é quadrada é acreditar numa fantasia.
Inicialmente você afirmou que “temos de respeitar” e foi sobre isso que respondi. Agora você mudou para “se eu acho isso errado”. Esta já é uma outra questão. Pessoalmente acho absurdo acreditar em coisas não comprovadas e, pior ainda, obrigar seus filhos a acreditar nas mesmas coisas. Todos têm o direito de acreditar no que quiser e quem acha que a crença é absurda também tem o direito de falar, meu texto não trata sobre direito, e não é sobre isso que estamos discutindo. Mas crer não muda a realidade. As pessoas têm o direito de acreditar que a Terra é plana e quadrada mas a realidade não muda por causa isso, ela continua arredondada. Eu me baseio na realidade.
Você não respondeu minha pergunta: qual é o seu critério para decidir se um dogma é absurdo ou não? Não, não é um critério pessoal. Nós nos baseamos no conhecimento humano atual para decidir o que é absurdo ou não. Cito o mesmo exemplo: acreditar que a Terra é plana e quadrada é absurdo pois sabemos que não é assim. Acreditar em coisas não comprovadas também é absurdo. As pessoas que acreditam em deuses não acreditam em unicórnios, fadas e duendes. Experimente perguntar a elas por quê.
Tenho. Se aceitassem fatos que comprovam que estão errados abandonariam imediatamente suas crenças. Os dogmas religiosos são afirmações sem provas. Se são aceitos pelos crentes então pode-se dizer que crentes aceitam afirmações sem provas. Não confunda “aceitar” (anuir) com “aceitar” (tolerar).
Se eu não quisesse ouvir a opinião das pessoas não tornaria meus textos públicos ou não permitiria comentários, como fazem alguns. Todos são bem-vindos para comentar aqui.
Porém hoje vivemos uma época de caça às bruxas e a simples menção de certas palavras pode ser mal-interpretada e dar margem a problemas legais, como você bem deve saber. Por essa razão eu precisava confirmar se se tratava de uma acusação ou apenas um erro na escolha da palavra.
Este espaço “é meu” em termos. Eu estou sujeito às absurdas leis brasileiras que limitam a liberdade de expressão apesar do artigo 5º da Magna Letra Morta (particularmente os itens IV e IX) me “garantirem” o direito de expressão (não posso violar essas leis ou serei processado e preso, não necessariamente nessa ordem); estou sujeito às leis estadunidenses pois este blog é hospedado por uma empresa estadunidense (não posso violar essas leis ou este blog será deletado); estou sujeito às regras da própria empresa que hospeda o blog e me concede gratuitamente este espaço (não posso violar essas regras ou este blog será deletado).
Em países onde a liberdade de expressão é ficção precisamos tomar cuidado com o que dizemos.
abraço
Saluton Tyrannosaurus, cxar mi me komprenas la Portugalan mi skribas vin esperante. Mi sxatas vian lingvon , kion mi volas eklerni unufoje. Dankon por via visiton en mia blogon.
Pli bonaj estimoj ,
Glavkos
Καλωσορίσατε! Και ευχαριστώ κι εγώ
Olá,
Não vejo como isso provaria que a pessoa sonha com um “espírito” ou qualquer outra coisa.
Se uma pessoa acertasse diversas informações sobre o morto, seria isso uma prova que ela sonha com mortos?
Pessoalmente, eu ainda não acreditaria. Mas novamente, isso é pessoal.
Como provamos que a pessoa está mentindo? Existe alguma maneira de gravar um sonho, por exemplo?
Novamente, nenhum dos lados pode provar nada.
Esta analogia com o formato da terra não é válida, pois atualmente temos mecanismos científicos para ver precisamente como ela é. O que não é tão simples no campo da espíritualidade, psicologia, etc.
Desculpe, Não entendi essa parte.
Sim, como falei, em nenhum momento quis acusa-lo de nenhum crime.
Realidade que você percebe, e não estou questionando ela, apenas estou tentando dizer que a realidade que você percebe não é a mesma para outras pessoas.
Como falei antes, não concordo com a analogia da terra quadrada.
Como não é um critério pessoal? Assumir o que eu julgo bom ou ruim como verdade universal seria etnocentrismo.
Como falei antes, não concordo com a analogia da terra quadrada. E cairemos novamente na discussão sobra as provas.
Você conhece todas as crenças?
Como provar para uma pessoa que não existe, por exemplo, um “julgamento” após a pessoa morrer? Que suas ações não são acompanhadas por uma “entidade” superior?
Existem diversos tipos de crença, e já conversei várias vezes com teístas sobre isso. Alguns realmente são totalmente inflexíveis, mas outros não.
Meu objetivo nessa conversa não é tentar convencer ninguém da possibilidade de existirem deuses, espíritos, encostos, etc. Pessoalmente tenho motivos suficientes para não acreditar nestas coisas. Mas como falei, isso é pessoal, não posso querer anular todas as crenças de outras pessoas basendo-me nisso, pois como falei antes, não temos como provar tudo.
Novamente, obrigado pela atenção.
Abs,
Olá, Rafael
Ops… eu tinha entendido outra coisa, desculpe.
Sua pergunta era: Como alguém pode provar que ouve pessoas que já morreram ou coisas desse tipo?
Respondo: Até o momento não pode. Talvez um dia (e se de fato houver algo após a morte).
Concordo com você, acertar informações sobre o morto não prova nada.
Discordo, isso não é pessoal. Qualquer pessoa com bom senso esperaria provas muito boas de tais afirmações. Acertar fatos não prova nada pois existem outras maneiras de se descobrir fatos sobre mortos. Através dos vivos, por exemplo.
Nesse caso não podemos provar, até o momento, que ela está mentindo, ela é que tem que comprovar o que afirma. Evidentemente não pode. Então caso encerrado.
Qual deve ser nossa postura? Duvidar até fatos concretos surjam. Porém, temos algum conhecimentos sobre sonhos, sabemos que são criados pelo inconsciente, etc.
Analogia é uma semelhança, como por exemplo, comparar-se a estrutura do átomo com os planetas em torno do sol. Não corresponde à realidade, vale apenas como analogia. Eu não fiz analogia, dei um exemplo real, existem pessoas que de fato acreditam que a Terra é quadrada. Há mais de 2000 anos os antigos gregos já haviam descoberto a forma da Terra, sem realizar uma circunavegação, sem subir num foguete para poder ver a Terra à distância, sem “mecanismos científicos atuais”, mas usando a inteligência.
Em outras palavras, temos duas situações:
1) A pessoa X acredita que a Terra é quadrada.
Sabemos que a terra é arredondada. Não há o que discutir, esta pessoa acredita em algo que não corresponde à realidade.
2) A pessoa Y acredita que conversa com mortos.
Ainda não sabemos se existe algo após a morte. Como você disse nem ela pode provar que é verdade nem outros podem provar que não é. Se ela acredita em algo não comprovado então acredita numa fantasia. E qual é a postura mais prudente? Duvidar e aguardar futuras descobertas. Pois não sabemos ainda, no futuro poderemos saber.
Houve época em que não se sabia o que era o trovão, não é de surpreender que acreditassem que fosse a voz de um deus irado. Uma explicação apressada para um evento desconhecido. Hoje ninguém (?) mais acredita nisso, pois sabemos o que é o trovão. Porém, muitas pessoas acreditam que quando morremos vamos para o céu ou o inferno. E por quê acreditam nisso? Porque ainda não sabemos o que acontece após a morte. Quando soubermos tais crenças praticamente deixarão de existir (claro, sempre haverá os que se recusam a aceitar os fatos). Ou seja, as crenças surgem do desconhecimento, como uma explicação apressada ao gosto do freguês; porém o desconhecimento é temporário. (“I think that it’s important for scientists to explain their work, particularly in cosmology. This now answers many questions once asked of religion.” – Stephen Hawking)
Retomemos esta seqüência:
(1) Rafael: “O ponto é que nenhum dos dois pode provar nada, a única coisa que podem fazer é escolher o que faz mais sentido e respeitar a crença dos outros.”
(2) T-Rex: “Isso é muito bonitinho, muito politicamente correto. Porém se tivermos que respeitar crenças em coisas não comprovadas teremos de respeitar igualmente cartomancia, quiromancia, astrologia, necromancia, bruxaria e qualquer pilantra que fundar uma igreja com propósitos escusos. Existem coisas e pessoas que eu respeito mas o meu respeito não é conquistado assim automaticamente bastando-se para isso declarar que algo é uma crença.”
(3) Rafael: “É por isso que nosso estado é laico, se a cartomancia, quiromancia, astrologia, necromancia, bruxaria e qualquer pilantra que fundar uma igreja não desrespeitarem as leis e os direitos dos outros, estão livres para seguir com suas cranças. Você acha isso errado?”
Inicialmente, em (1), você afirmou que “temos de respeitar”. Em (2) eu respondi a essa colocação (sobre termos de respeitar). Em (3) você já não insistia na tese que temos que respeitar mas mudou a colocação para “se eu acho isso errado”. Então respondi que esta já é uma outra questão. Certo e errado também não era o tema do meu texto e é uma questão mais complexa.
Depende. De fato não podemos saber, até o momento, se a minha percepção da cor vermelha é exatamente igual à sua. Porém ambos podemos perceber que F=m.a realizando as mesmas experiências que Newton.
Não estávamos falando em “bom ou ruim”, estávamos falando em “ser absurdo ou não”. Por exemplo, sabemos que homens não voam. Se alguém afirmar ser o super-homem podemos dizer que isso é um absurdo, baseados no conhecimento de que homens não voam, não são imunes a tudo, etc. Então podemos, sim, afirmar que algo é absurdo baseados no conhecimento disponível na ocasião e não como uma opinião subjetiva.
Nós podemos tentar descobrir isso através da ciência, um dia, quem sabe. Até que isso aconteça, aqueles que afirmam que existe qualquer coisa após a morte é que têm de provar o que dizem. Mas não podem fazê-lo, sabemos disso. É apenas uma crença.
Meu objetivo também não é convencer ninguém de nada, muito menos de “anular todas as crenças” (se quisesse isso não estaria aqui, estaria no metrô, fazendo pregações indesejadas, irritando e incomodando as pessoas logo de manhã). Meu objetivo, em resumo, é pensar sobre o universo, colocar meus pensamentos ao público, receber questionamentos, depurar através deles o meu pensamento, e assim por diante. Se alguém discorda de mim vou analisar os argumentos dessa pessoa – eu posso ter errado em alguma conclusão por ter conhecimentos imprecisos sobre algo, ou pode ser que eu não tenha me explicado bem no texto. De qualquer maneira críticas e elogios me ajudam.
abraço
Tyrannosaurus, boa tarde! Estou lendo vários de seus artigos, e são muito bacanas. Parabéns pelo belo blog.
Quanto a este artigo, gostaria não de fazer uma crítica, mas de colocar um outro ponto de vista. Eu também sou ateu e cético. Mas não me vejo num estado de ‘suspensão do juízo’, como o que descreveu como atitude cética no artigo. Suspensão do juízo é da filosofia pirrônica, e que leva ao agnosticismo, não ao ateísmo. Se eu me ponho a pensar, entendo que ninguém na prática é um cético pirrônico / agnóstico. Ceticamente falando, não temos razão para acreditar, por exemplo, que a padaria da esquina continua existindo, porque pode ter sido uma ilusão, um sonho, ou podemos estar numa Matrix, ou até na barriga da Grande Abóbora. Estou pensando em Descartes. Também pode ser que tenha desaparecido. Estou pensando em Hume. Veja, se formos levar a sério, não podemos acreditar na padaria! Porém, todas as manhãs eu saio de casa pra ir comprar pãozinho na padaria, mesmo não sabendo se ela existe ou não existe. Veja, eu não assumo uma postura de suspensão quanto à padaria: eu não tenho certeza, mas eu acho. Eu acredito que a padaria está lá. É muito provável que esteja. Para sustentar essa ‘crença’ de que a padaria está lá eu me apoio na regularidade da natureza, ou seja, é indução. Pois bem, pretendo com isso ter demonstrado que na prática ninguém é agnóstico / pirrônico. E se não somos quanto à padaria, eu pelo menos, quanto a deus também não sou. Eu creio que não exista. Mesmo a ciência faz suposições quanto às coisas das quais não tem certeza. Isso também é crença. Não é fé, mas é crença. É conhecimento provisório. Então eu entendo que se pode afirmar: deus não existe. Eu não tenho certeza, é verdade. Mas nessa mesma base eu também não tenho certeza quanto à padaria.
Mais uma vez, parabéns pelo blog.
Eric.
Olá, Eric
Tudo depende da definição de “crer/acreditar”. Podemos dizer “acredito na ciência” ou “acredito em deus” mas o que se quer dizer é diferente nos dois casos. No meu texto eu insisto em deixar clara essa diferença para que não se pense que as “crenças” são iguais. Quando você diz “Isso também é crença” está usando “crença” ambiguamente, tanto é assim que para explicitar a qual sentido você se refere tem de acrescentar a observação “Não é fé, mas é crença”. De resto concordo com você, apenas insisto em evitar o uso ambíguo dos verbos “crer/acreditar” para que não se pense que as pessoas “têm fé na Ciência” da mesma maneira que crentes têm fé no seu deus.
[Update 10/04/2010]Complementando: é pensamento comum que o agnosticismo julga que certas perguntas não podem ser respondidas. Eu sustento que as leis do universo podem ser conhecidas e portanto todas as perguntas podem ser respondidas ao longo do tempo (embora provavelmente o ser humano encontre a extinção antes de responder muitas delas). Por isso não penso que a postura neutra (não é exatamente uma postura pirrônica) leve fatalmente ao agnosticismo.[/Update]
obrigado
abraço
Boa tarde!
Meu ponto é que a suposta postura neutra na verdade é uma postura que ninguém assume na prática. Como no exemplo, ninguém deixa de ir à padaria porque leu algum artigo sobre teoria do conhecimento. Ninguém suspende o juízo quando o assunto é Coelhinho da Páscoa. Veja, ninguém pode provar nada, mas todos ‘sabem’ que a padaria está lá e que o coelhinho não existe. Por que as aspas? Porque ‘saber’, nesses casos, é acreditar, pois realmente não se pode ter certeza (considere os argumentos céticos). Pois bem, se todos agimos assim (não temos certeza, mas acreditamos) com relação a quase tudo, por que é que quando se trata de deus ou espíritos ou etc. a maioria das pessoas se diz cético (pirrônico), neutro (céticismo acadêmico) ou agnóstico (saída pela tangente)? Veja, neutralidade não é uma postura: na prática todos acabam se posicionando.
Mas compreendo que este realmente não é o ponto de seu post. É só algo que discuto com os colegas sempre que se declaram neutros ou agnósticos.
Obrigado, Eric.
Se alguém me perguntar o que penso sobre a existência de seres sobrenaturais direi que acho/suponho/penso/concluo que não existem, baseado na lógica e no conhecimento atual. Mas não posso afirmar categoricamente que não existem. E a resposta definitiva pode ou não vir com tempo. Foi isso que chamei aqui de “postura neutra”, a de não afirmar nada enquanto não há provas. Não há qualquer “suspensão de julgamento”. Achamos/supomos/pensamos/concluímos que a padaria vai estar no mesmo lugar amanhã baseados na lógica. Crenças não seguem a lógica.
abraço
Prezado…
Congratulações pela análise impecável (de fato, eu já tive oportunidade de verificar essa tola comparação da descrença cética e aberta com uma “crença” até em comentários de um grupo internacional que se denomina “ateísta” no FaceBook!).
Mas o duro mesmo de aguentar é essa eterna ladainha dos teístas que insistem, não em argumentar com fatos *novos* (o que seria muito bem-vindo e de grande interesse para a discussão), mas sim em apresentar tolices mais do que manjadas, discutidas e refutadas (alguma delas, refutadas há *śeculos*!) como se fossem “a última das verdades”…
Saudações libertárias!
Olá, Mauro
Sim, as discussões se repetem sempre e sempre como se jamais tivessem ocorrido antes, pelo menos neste campo. Extremamente improdutívo…
Obrigado!
abraço
ei! fazia tempo que não passava aqui, né?
excelente texto, como sempre. eu sempre me irritei com a insistencia dos cristãos em dizer que a frase “eu não creio em deus” é redundante, ou coisa do tipo… esse post é praticamente um tapa na cara dessas abobrinhas.
Olá Julia!
Realmente fazia tempo que você não me visitava. Mas também eu demoro muito para postar coisas novas… :/
obrigado
e um abraço!