Ludopédio Dominical

Me Tarzan You Jane” dizia num inglês rudimentar. Assim deve parecer aos ouvidos saxões o nosso “futebol”, tosco, como nativos de uma terra distante ao tentar imitar os sons inexistentes em sua língua, para deleite dos exploradores de Sua Majestade. “Football” não sai direito… “futebol”? Vá lá…

Os alemães, sem qualquer esforço, produzem “Fußball“, juntando as palavras “Fuß” (pé) e “Ball” (bola), fácil e natural. E os finlandeses dizem “jalkapallo“, acertou quem adivinhou que “jalka” = pé e “pallo” = bola. Já o islandês leva essa característica ao extremo e raramente incorpora uma palavra estrangeira, mas prefere criar palavras para novos conceitos utilizando elementos da própria língua *1.

O problema é que nosso idioma não permite a construção de palavras novas usando-se palavras portuguesas. Palavras como “pernilongo” (perna + longa) não podem ser criadas à vontade, ou seja, “pébola”, ou similar, é inviável. É possível, em princípio, usar o latim ou o grego, mas isso não é para qualquer mortal, o falante precisa conhecer muito bem latim e grego e ter a tarimba de um membro da academia. De qualquer maneira o resultado pode ser esdrúxulo: “ludopédio” *2, palavra que nem seria entendida por gregos nem troianos nem romanos, e nem pela maioria dos lusófonos.

Um ex-ministro “collorido” *3 tentou criar a palavra “imexível” e foi ridicularizado. Não que eu esteja defendendo o ex-ministro que, de fato, não era muito versado em língua portuguesa (e nem em política, direito, etc), acontece que “imexível” é perfeitamente compreensível – formado pelo prefixo “i(n)-” que indica negação, pelo verbo “mexer” e pelo sufixo “-(í)vel” que indica possibilidade. Aquilo que não pode ser mexido seria “imexível”, parece bom, mas a palavra não consta do dicionário… E é consenso geral (?) que se uma palavra não está no dicionário ela “não existe” e seu uso “estaria incorreto”; fato que causaria ‘frouxos de riso’ num alemão ou num finlandês, em cujos idiomas os dicionários trazem apenas palavras simples e é possível criar-se novas palavras compostas utilizando-se aquelas.

Resta-nos apenas a solução da importação de palavras estrangeiras usadas (a) na sua forma original (como “software”) ou (b) toscamente alteradas para simular a pronúncia original (“futebol”). A solução (a) não é muito boa, pois nem todos saberiam como pronunciar a palavra, e a solução (b) produz resultados freqüentemente grotescos; por exemplo, a palavra “bluetooth” tem um ‘th’ no final, difícil de pronunciar para os brasileiros, resultando num hilário “blutúfi”. Que fazer? “Dente Azul”?

Novos termos estão constantemente surgindo, se a língua portuguesa não oferece meios de criação de palavras e é forçada a incorporar sempre palavras inglesas então será que o português do Brasil vai se transformar num “pidgin english“?

*1
Overview of the Icelandic Language
The Idiosyncracies of Learning Icelandic
High Icelandic

*2
Ludopédio: do latim ludus (jogo) e pes [pedis] (pé). Sugestão estrambótica para substituir a palavra “futebol” que, felizmente, “não pegou”.

*3
Rogério Magri, ex-ministro do Trabalho do governo Fernando Collor, cunhou o termo “imexível” ao se referir ao plano econômico (o famigerado plano Collor). Também ficou conhecido pela frase “cachorro também é gente” que proferiu ao ser pego utilizando um veículo público para conduzir seu cão por Brasília.

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