A Criação de Deus e da Religião

Este artigo apresenta de maneira simplificada uma tese para tentar explicar a origem da idéia de deus e das religiões, evidentemente existem imprecisões.

A Criação de Deus

man and godA curiosidade é uma qualidade aparente em vários animais, porém lhes falta o entendimento de causa e efeito. No homem, aliada ao raciocínio, não mais se apraz somente em olhar mais de perto, mas necessita também investigar as causas e as conseqüências.
Não se trata apenas de curiosidade gratuita mas também uma questão de sobrevivência. Saber o que é a chuva e por que chove ajudará a responder à pergunta mais crucial para a agricultura: quando choverá novamente, ou quem sabe até fazer chover, prever o futuro para evitar entrar numa guerra perdida, alterar o curso e o resultado dos eventos. Numa primeira tentativa de resolver a essas questões o homem cria métodos para tentar prever o futuro (astrologia, quiromancia, necromancia) e métodos para tentar alterar o futuro (magia, bruxaria, encantamentos).

Assim, tão inata quanto a curiosidade é a necessidade de se encontrar uma explicação para os fenômenos ainda não compreendidos.
Ao presenciar um fenômeno cujas causas não compreende, deduz que se um homem não é responsável por tal evento, deve haver alguma outra causa. “Um homem com um machado de pedra pode partir um galho, um raio que destrói uma árvore deve ter sido produzido por algum ser com muito mais força que o homem”. Dessa maneira surge a idéia de um deus que controla os fenômenos meteorológicos.

Por processos similares surgem também as idéias do deus da guerra, da caça, do amor, e toda gama de fatores que têm importância na vida humana. A idéia básica é sempre a mesma, incapaz de compreender fenômenos complexos, o homem os atribui a uma ou mais divindades. O homem tem uma imaginação versátil porém com algumas limitações, uma em particular é a dificuldade de imaginar entidades sem uma aparência física. Essa dificuldade o estimula a criar representações antropomórficas dessas entidades. Graças a essa característica o homem imagina seus deuses, em princípio, com aparência de algum animal que admire. Posteriormente os imagina com sua própria aparência. Essa idéia de um deus com a aparência humana coaduna-se perfeitamente com a suposição de que o homem é o único animal que raciocina, ou seja, o homem, na opinião do próprio homem, é superior a todas as outras formas de vida, portanto é o ápice da perfeição. E assim o homem criou deus à sua imagem e semelhança, só para poder acreditar que foi criado à imagem e semelhança de seu deus, para justificar sua pretensa superioridade e para reivindicar a propriedade do planeta [gênesis 1:26].
Tendo inventado um deus com forma humana passa a atribuir qualidades humanas a esse deus: “se deus criou o homem, deve ser fundamentalmente bom, como um pai, mas tem momentos de ira, principalmente quando seus filhos erram, e precisa puní-los para ensiná-los”.

Existe um outro processo, a nível individual, que leva às mesmas idéias. Toda criança crê que seus pais são extremamente poderosos e podem protegê-la de todos os perigos, acredita que vejam tudo e saibam tudo e que sejam perfeitos e eternos. Conforme cresce, percebe que seus pais não são perfeitos, não são indestrutíveis, e pior, não são eternos. Essa descoberta (assim como a descoberta de que Papai-Noel não existe) leva a uma decepção e a uma necessidade de se imaginar um pai e uma mãe eternos e super-poderosos que satisfaçam nossas carências e nossos medos. A idéia e a necessidade de pai e mãe eternos são, portanto, latentes no homem e esse é o verdadeiro “Fator Melquisedeque” [1]. A idéia de deus como pai de todos e a mãe de deus como mãe de todos é resultado dessa carência.

A Criação da Religião

O passo seguinte é a criação de métodos para interagir com seu deus, de interceder em seu próprio benefício, de conseguir favores: chuva, boas colheitas, vitória na guerra, riquezas. Esses métodos seriam uma evolução em relação aos primitivos métodos de previsão do futuro e alteração de eventos. Assim como os líderes de sua aldeia podem facilmente conceder favores em troca de alguns presentes, seu deus antropóide pode talvez agir da mesma maneira e atender seus pedidos em troca de presentes, geralmente coisas de valor para o homem como comida, jóias, pedras, seu próprio sangue, sacrifícios humanos. Surge a idéia de que deus pode ser subornado como um político corrupto. Um avanço conveniente dessa prática é a idéia de se oferecer orações e promessas ao invés de bens materiais, pois estes são bem mais acessíveis, e isso também dá uma certa coerência ao processo, afinal um deus imaterial não precisaria de bens materiais. Assim, os métodos para se interagir com deus, rituais de adoração (isso deve deixá-lo contente), consultá-lo sobre o futuro, obter favores especiais, dá origem à religião.
Logo surgem os “especialistas” em religião, os quais agiriam como intermediários entre deus e as pessoas comuns. Bastante conveniente, pois cria uma classe rica e poderosa, em várias culturas com poder paralelo ao da classe governante.

Para conseguir riqueza e poder, a nova classe sacerdotal precisa criar técnicas para manipular e controlar os seguidores e também para conquistar sempre mais adeptos. Para controlar e manipular os seguidores tem-se regras (mandamentos) e ensinamentos que não podem ser questionados (dogmas) cujas trangressões (pecados) estão sujeitas a punições. Para conquistar novos seguidores usa-se o proselitismo (evangelização) ou em último caso a força. A conversão serve aos interesses dos líderes religiosos mas também reforça a fé dos seguidores, agindo como uma retro-alimentação (feedback), pois vêem na conversão dos infiéis uma demonstração do poder do seu deus.

Após séculos de aperfeiçoamentos, as técnicas de manipulação, controle e conversão desenvolveram requintes dignos de um Machiavelli. Destacando-se:

– A criação de um quase antagonista de deus (demônio), que representa e explica a existência do mal, serve para aterrorizar os seguidores e ameaçar os não-seguidores; o expediente é particularmente eficaz para anular ataques contra a religião pois quaisquer tentativas de se dissuadir crentes serão atribuidas a pessoas que estariam a serviço do mal. Os crentes não podem ser desafiados a comprovar a existência desse ser pois um dos truques do “senhor do mal” é “fazer os homens duvidarem de sua existência”. Bastante engenhoso.

– A perpetuação da religião, além do tempo de vida de seus idealizadores, a qual só é possível com um compromisso de fidelidade incondicional e eterna de seus seguidores, conseguido através do terrorismo e da lavagem cerebral que devem ser iniciados assim que uma pessoa nasce – o ritual do batismo marca o início do processo de lavagem cerebral que durará anos e tornará quase impossível que a vítima abandone as crenças nas quais foi educado. Um dos feitos mais eficientes, engenhosos e cruéis dos religiosos foi conseguir convencer pais e mães a violentar intelectualmente [2] seus próprios filhos e usá-los para perpetuar o poder da religião, o obscurantismo e a ignorância.

 


Notas

[1] – “Fator Melquisedeque” – teoria que tenta explicar a origem das religiões em livro homônimo de Don Richardson.

[2] – Em alguns casos há também violência física, como a circuncisão, comparável à mutilação genital em algumas culturas africanas.



Ver também:
As Leis da Natureza
Violência Intelectual contra Crianças


“Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.”
Carl Sagan – Contact (1985)


15 respostas para A Criação de Deus e da Religião

  1. Pode interessar a você e seus leitores o livro: “The God Part of the Brain”, Matthew Alper. Ele apresenta uma proposta muito interessante de como, evolutivamente o conceito de deus surgiu na mente humana.
    Para béns pelo site.

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