O Bem e o Mal

good-evil3a.jpgImaginemos o planeta terra no período hadeano há cerca de quatro bilhões de anos. Ainda não existia nenhuma forma de vida, a crosta terrestre estava em formação com vulcões e eventos cataclísmicos.
Neste cenário inóspito podemos pensar melhor sobre a natureza do bem e do mal. Podemos notar que:

1) Catástrofes naturais não são manifestações do mal

Os eventos catastróficos que modelam a superfície terrestre são apenas fenômenos físico-químicos que acontecem segundo leis naturais. Nós seres humanos (anthropoi) somos antropocêntricos, nada mais natural. Assim, classificamos de ‘mal’ tudo que nos atinge e de ‘bem’ tudos que nos favorece. Daí nossa tendência de classificar terremotos, vulcões, furacões, tsunamis como ‘mal’ ou como castigo divino, provação ou similar. Mas estes não existem somente com o fim de nos fazer mal, já existiam antes de surgirmos e se nos fazem mal é porque estamos no lugar errado e na hora errada.

2) Bem e mal não tem origem sobrenatural

O demônio ou o “maligno” são uma tentativa primitiva de explicar o mal, ou seja, uma tentativa de personificação/antropomorfização de algo abstrato. Mas num cenário onde o ser humano não existe qual seria a função desse demônio? Teria ele sido criado em função de nós? Que será dele quando deixarmos de existir, irá morrer de tédio? A existência de tal entidade não tem significado sem a nossa existência – parece óbvio que essa e outras entidades imaginárias foram criadas por nós.

3) Bem e mal são humanos

Vê-se que abstraindo-se a existência dos seres humanos os conceitos de bem e mal não fazem sentido, são inexistentes. Mesmo num cenário onde já exista vida, porém sem o ser humano, tudo acontece segundo as leis da natureza, em harmonia com ela. Os problemas começam a surgir quando o ser humano entra em cena. Dessa maneira, ‘bem’ e ‘mal’ classificam ações praticadas por seres humanos que afetam os próprios seres humanos e são naturais e inerentes ao ser humano. As ações do homem que afetam a natureza não podem ser classificadas como mal, não só porque a natureza não é um ser mas também porque, do ponto de vista da natureza, o homem é apenas mais uma catástrofe natural. Um dia o homem deixará de existir mas o universo continuará indiferente e se recuperará de mais essa catátrofe como já aconteceu antes.

“This, however, is a passing nightmare; in time the earth will become again incapable of supporting life, and peace will return.” – (Bertrand Russell in Unpopular Essays (1950), Ch 1: Philosophy and Politics)

A Evolução

Nós somos a origem, a causa e o fim do bem e do mal. Assim como todas as nossas características também a tendência de praticar bem e mal são resultado da evolução. Os animais não praticam o bem ou o mal, apenas fazem o que são programados para fazer, seguem a receita já testada e aprovada ao longo de milênios e registrada no seu DNA, nem mais nem menos. Nós, no entanto, em algum momento adquirimos auto-consciência e assim desenvolvemos nossa própria vontade, já não agimos mais como animais, não fazemos mais apenas o que fomos programados para fazer. Com o passar do tempo nossa programação natural vai ficando esquecida e reprimida. A necessidade de convivência em sociedade nos obriga a criar leis para tentar substituir as leis da natureza que já não seguimos mais, porém, conscientemente, violamos também estas leis. Nossos conceitos, idéias e atos têm origem no nosso cérebro e este não é exatamente igual em todos nós; falhas, mal-formações, defeitos genéticos, questões sociais, histórico pessoal são fatores que influenciam na nossa capacidade de discernimento e na tendência de praticar bem ou mal. Ademais não se pode negligenciar o fato de que certos conceitos são relativos e mudam no espaço e no tempo. Os detalhes destes processos ficam a cargo da biologia, antropologia, psiquiatria, neurologia, sociologia, o que importa aqui é destacar que bem e mal são puramente humanos.

Desfazendo mitos

“O homem nasce bom e a sociedade o corrompe” – não é verdade, a tendência a praticar bons a maus atos está em todos nós; a sociedade e suas regras foram criadas pelos seres humanos, suas falhas são nossas falhas.

“Deus criou o bem e mal” – não é verdade, bem e mal são apenas coisas que fazemos e existem porque nós existimos.

“O mal é a ausência do bem assim como escuridão é ausência de luz” – apenas questão de definição ou visão pessoal.

“Tudo é ao mesmo tempo bem e mal” – apenas questão de definição ou visão pessoal.

“Há uma eterna luta do bem contra o mal” – visão poética/artística pessoal. Não faz sentido na realidade. Se existe uma batalha entre coisas boas e coisas ruins que faço então existe uma batalha entre meu chá e meu café.

Conclusão

Bem é o que fazemos para ajudar ou beneficiar, mal é o que fazemos para prejudicar. O bem e o mal só têm existência em nós, para nós e por nós – terão existência enquanto existirmos, e não têm nada a ver com quaisquer entidades sobrenaturais, nem deuses nem demônios.



Ver também: As Leis da Natureza


(Texto sujeito a evolução e depuração… como tudo)

6 respostas para O Bem e o Mal

  1. Oi T-rex (rs),

    Gostei do texto. Você o indicou quando passou no meu blog, Letras Despidas, no post da minha amiga Bia sobre o “Mal e a Religião”. Realmente a análise de vocês foi bem parecida, com a relativização destes conceitos. Quando você fala em evolução e DNA, me lembrou um dos últimos textos que escrevi, que é o “Pensamento Finalista II: a teleologia em meio à evolução natural”.

    Parabéns pelo seu blog,

    Abraços

  2. Tyrannosaurus disse:

    Obrigado Adriano

    Vou ler seu texto.

    abraço

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