Ética e Sobrevivência

edge2a.jpgUma abordagem sob um ponto de vista biológico, natural e evolutivo

Os animais trazem codificadas em seu DNA as instruções necessárias para a sobrevivência da sua espécie, as quais dão origem ao que chamamos instinto natural.

Nós também possuímos basicamente as mesmas instruções no nosso código genético e os mesmos padrões de comportamento, porém, por alguma razão, não seguimos todas essas leis naturais. Nossos costumes e nossa ética (que se refletem em nossas leis escritas) nos impedem de seguir nossa programação original – é até possível que a codificação de algumas dessas leis naturais no nosso DNA tenha se modificado ligeiramente ao longo da nossa evolução.

São algumas leis naturais 1 :

  1. lutar para sobreviver a qualquer custo
  2. lei do mais forte (recursos limitados ficam com os elementos mais fortes) – (de certa forma ainda é assim, porém em sentido financeiro e não mais em sentido de força física)
  3. animais não matam os da sua própria espécie, com poucas exceções:
    1. animais defeituosos ou doentes (especialmente filhotes) são deixados para morrer;
    2. em caso de fome extrema alguns indivíduos (especialmente filhotes) podem virar comida;
    3. alguns indivíduos podem ser mortos em caso de excesso de população (provocado por algum desequilibrio anormal no ecossistema);
  4. animais só matam os de outra espécie para se alimentar ou em casos excepcionais;
  5. em caso de conflito entre animais da mesma espécie tudo se resolve com demonstrações de força ou, em último caso, com uma briga justa;
  6. roubo de comida é normal; alguns animais eventualmente roubam material para construir suas casas ou ninhos;
  7. os animais vão tentar se reproduzir a qualquer custo, em particular:
    1. machos tentam se reproduzir com o maior número de fêmeas possível;
    2. fêmeas procuram sempre selecionar os melhores parceiros, os mais saudáveis, e os que têm maior probabilidade de produzir prole mais forte;
  8. os animais não agem com intenção de prejudicar outros animais, mas também não se ajudam (com raríssimas exceções);
  9. os animais não destroem a natureza;

Um fator absolutamente determinante da sobrevivência é o equilibrio, que se manifesta da seguinte maneira:

  1. equilibrio populacional: todas as espécies têm uma população mais ou menos constante ou com flutuações sazonais dentro de certos limites;
  2. equilibrio no relacionamento entre indivíduos da mesma espécie, entre indivíduos de espécies diferentes e entre as espécies e a natureza – equilibrio este obtido através da obediência àquelas leis naturais;

As espécies vivas hoje estão em equilibrio há muito tempo e tem sua sobrevivência maximizada, para não dizer garantida, pelo menos até que ocorra algum fator de desequilibrio. As que já estão extintas tiveram seu equilibrio rompido de alguma maneira e não puderam, por alguma razão, se adaptar e retornar a um novo ponto de equilibrio.

Nós, humanos, existimos como espécie há relativamente pouco tempo, algumas centenas de milhares de anos, e ainda não atingimos um ponto de equilibrio. Nossa população cresce constantemente e fora de controle, não conseguimos atingir um equilibrio social (entre nós) nem natural (entre nós e outras espécies ou entre nós e a natureza). O fato de que jamais na nossa história tenhamos atingido um ponto de equilibrio indica que nossa espécie ainda não deu certo, ou, ainda não se mostrou auto-suficiente como espécie, ou seja, é uma espécie experimental do ponto de vista da natureza, e assim corre risco de falhar, de se mostrar inviável.

Conclusão

Se fôssemos irracionais e seguíssemos as leis naturais da nossa programação biológica, já poderíamos ter atingido um ponto de equilibrio – nossa espécie seria mais ou menos perene, pelo menos até que surgisse um fator de desequilibrio.

Nossa racionalidade nos impede de seguir aquelas leis naturais e para compensar criamos nossas próprias leis (ética e costumes) na tentativa de atingir, por outras vias, o equilibrio social e natural que iriam garantir a continuidade da espécie. Contudo, a substituição das leis naturais pela nossa ética não está funcionando, visto que não atingimos o equilibrio e não há nada que indique que isso está em vias de acontecer.

Se nossa ética diverge das leis naturais, ela é anti-natural. As leis naturais visam a manutenção da espécie, sendo assim, nossa ética colabora para nossa extinção. Contudo, não podemos voltar a agir como animais irracionais, e assim, estamos num ponto sem volta.

O que não deixa de ser uma grande ironia já que muitos acreditam que nossa ética provém de inspiração divina.

 

Poderíamos, neste ponto, definir Ética cinicamente, de um ponto de vista naturalista, como sendo uma tentativa capenga de se conseguir equilibrio social e natural através da substituição de um código de leis naturais por outro artificial.

 


 

[1] – Ver também The Origin of Species.

 


 

This, however, is a passing nightmare; in time the earth will become again incapable of supporting life, and peace will return.Bertrand Russell (Unpopular Essays (1950), Ch 1: Philosophy and Politics)

4 respostas para Ética e Sobrevivência

  1. juliapedreira disse:

    adorei o ponto de vista😀

    mas não sei se concordo que a espécie humana está em declínio, talvez ainda estejamos mesmo só em fase de procura do equilíbrio. se pensarmos no mundo como um todo veremos que há países onde a população já é estável… e em outros a população até decresce (talvez uma comprovação do seu ponto de vista).

    ps.: obrigada pelo comentário em meu blog, gostei muito do seu.

  2. Tyrannosaurus disse:

    Olá Julia

    Bem, é uma hipótese… o tempo dirá se acertei ou se “viajei na maionese”.😉

    Obrigado pela visita e pelo comentário. E venha sempre!

    Abraços

  3. max disse:

    Parabens,uma ótica interessante digna de reflexão.A titulo de pragmatismo,como fica á etica,consciencia e responsabilidade nos periodos de conflito(querra)?Ética x sobrevivencia.Ideologia x pragmatismo.Comportamento humano sob pressão.

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