Violência Intelectual contra Crianças

Aprendizado em Crianças

Quando uma criança aprende que quando uma bola rola para baixo de um sofá, ela vai aparecer do outro lado?

Uma pesquisa realizada por psicólogos da New York University dá a primeira evidência conclusiva de que as crianças realmente aprendem os conceitos sobre os objetos bem cedo – entre os 3 e 6 meses de idade – e que elas conseguem isso através da observação visual.

Por volta dos sete anos de idade o pensamento lógico, objetivo, adquire preponderância. Agora a criança é capaz de construir um conhecimento mais compatível com o mundo que a rodeia. O real e o fantástico não mais se misturarão em sua percepção.

Aos 11~12 anos a criança já é capaz de compreender as relações de causa e efeito; esta nova lógica lhe permite iniciar processos reflexivos.

Agora a criança já sabe que objetos não caem para cima, pessoas não desaparecem, cavalos não voam, árvores não falam.

Durante seu curto período de vida essa criança jamais viu tais coisas acontecerem e seu bom-senso lhe dirá que não poderiam acontecer se questionadas a respeito. Se você disser a uma criança dessa idade que viu um cachorro que fala ou uma árvore que voa ela provavelmente fará uma expressão desconfiada e poderá dizer algo como: “É? Duvido… Quero ver!”.

A Mentira como Violência Intelectual

Então por que tantos adultos acreditam que arbustos falam, peixes caem do céu, mares se abrem, água se transforma em sangue, pessoas andam sobre a água e ressuscitam? Quando, como e por que abandonaram o bom-senso e a lógica?

A resposta é simples: quando lhes disseram, de pequenos, que essas coisas aconteciam no passado ou eventualmente acontecem hoje.

Se pessoas nas quais a criança confia lhe dizem que tais coisas acontecem, ela lhes dá crédito; e mesmo que esse ensinamento contrarie suas observações pessoais do mundo ela passa a aceitar o fato de que coisas fantásticas e sobrenaturais podem acontecer ao mesmo tempo em que passa a não confiar mais em seu bom-senso – deixa de lado a lógica para se tornar crédula, supersticiosa e irracional.

Onde passa um Boi passa uma Boiada

Considere o seguinte diálogo (versão simplificada de um diálogo real):

Ateu: – “Se tivessem dito a você, desde a infância, que eu sou deus, hoje você teria certeza de que sou deus e não exigiria provas de mim, assim como não exige provas de quem lhe falou sobre o deus hebreu.”
Crente: – “Eu sei que você não é Deus!”
Ateu: – “E como sabe que eu não sou o verdadeiro deus, o deus hebreu é que é, se não exige provas?”
Crente: – “Sei através de uma experiência pessoal que você não entenderia.”

Na verdade o crente sabe que não sou deus porque seu bom-senso assim lhe diz. E “sabe que o deus hebreu é o verdadeiro deus” porque é isso que lhe foi dito desde a infância. E, diga-se de passagem, se o Brasil tivesse sido colonizado por muçulmanos hoje ele teria certeza de que Alá é o verdadeiro deus, e assim por diante. Acontece que esse bom-senso se desliga automaticamente quando o assunto são os dogmas religiosos.

O leitor certamente já deve ter assistido um daqueles filmes em que alguém é hipnotizado e ao ouvir uma determinada palavra entra em estado de transe, realiza sua missão (geralmente assassinar alguém) e depois sai do transe sem se lembrar do ocorrido. O desligamento do bom-senso é algo similar, ao entrar no assunto ‘dogmas religiosos’ o bom-senso se desliga e a pessoa passa a seguir a “programação dogmática” recebida desde a infância.

E é justamente esse o dano causado por se ensinar religião a crianças: seu bom-senso passa a se desligar em determinadas ocasiões. Ensinar religião a crianças é como dizer a sua mente: “seu bom-senso é correto, confie nele, mas existe uma exceção que são os assuntos religiosos, nessa área desligue o bom-senso”. O problema fica mais grave porque a abertura dessa exceção para o funcionamento do bom-senso é como a famosa porteira que se abre para um boi, e ‘onde passa um boi passa uma boiada’. Uma vez que se tenha ensinado a uma criança que existem exceções para a lógica, a racionalidade, o bom-senso, enfim, para a realidade, ela sempre “abrirá exceções” quando o assunto for qualquer crença (religião, astrologia, chupa-cabra, etc), admitirá a existência de uma “supra-realidade” (fenômenos sobrenaturais) e estará para sempre sujeita a ser vítima de espertalhões e pilantras.
O ditado espanhol “no creo en brujas pero que las hay las hay” demonstra exatamente isso.

“Estará SEMPRE sujeita”? Bem, quase sempre, na grande maioria dos casos, sim. Apenas 3-4% das pessoas que foram doutrinadas desde a infância conseguem se libertar da “programação dogmática”. E de onde veio esse número 3-4% ? Esse é o percentual aproximado de ateus no Brasil (4-5%) descontando-se uma parcela ínfima de pessoas que jamais receberam instrução religiosa (ateus de nascença [1]), o restante (3-4%) é, portanto, o percentual aproximado de pessoas que conseguiram se libertar.

Abuso Intelectual

De acordo com o Portal Ciência & Vida: “O abuso intelectual surge quando o pensamento da criança é ridicularizado, quando não é permitido expressar o que pensa ou ainda quando é reprovada porque seu pensamento difere do dos pais. O abuso intelectual também ocorre quando os pais invadem o processo de tomada de decisão dos filhos e decidem tudo por eles ou se omitem totalmente. Não é ensinado aos filhos que ter problemas e solucioná-los é normal.”

“A repressão da liberdade de pensamento das crianças impede a construção da identidade e individuação. Essas crianças, quando se tornam adultas, esperam que as outras pessoas lhe digam como fazer praticamente tudo. Algumas delas procurarão se casar com cônjuges controladores ou freqüentar ambientes onde haja regras muito rígidas.”

A terapeuta Marta Grzywacz [2] define:

Abuso intelectual ocorre quando o processo de pensamento é desconsiderado, interrompido ou desencorajado. Ou seja, críticas destrutivas aos pensamentos, julgamentos ou punições duras por erros de raciocínio, imposição rígida de como e o que pensar, sem espaço para criatividade ou erro.

Abuso religioso ocorre quando preceitos, ensinamentos ou rituais religiosos são impostos e crianças são forçadas a aceitar sistemas inflexíveis dos pais, enquanto suas próprias verdades espirituais são minadas ou negadas. O mesmo se dá com comunidades que são forçadas a seguir programas teológicos (dogmas) específicos sob ameaça de punição.

O psiquiatra infantil Robert Shubinski define:

Intellectual abuse: violates a person’s right to think for themself

  • witholding pertinent information from a person
  • brainwashing
  • stifling a person’s right to an education
  • restricting access to information
  • preventing a person from being influenced by friends, counselors, family members etc…
  • using intellectual arguments to manipulate

Spiritual abuse: violates a person’s religious boundaries and choices

  • forcing a person to conform religiously
  • using spirituality to control or dominate a person
  • imposing one’s value system on another person
  • misuse of spiritual power and leadership to take advantage of a person

O estrago feito na maneira de pensar de uma criança e como ela vê o mundo é tão grande que dificilmente, e só com imenso esforço, ela se recuperará. Essa é a razão porque tantas pessoas chegam à vida adulta acreditando em coisas sobrenaturais e assim permanecem toda a vida, incapazes de enxergar o ridículo de adultos acreditando em Papai Noel.

Ensinar religião a uma criança é destruir-lhe o bom-senso e violentar-lhe o intelecto.



“Eu defenderia a liberdade dos adultos criacionistas de praticar qualquer perversão intelectual que eles gostem na privacidade de seus próprios lares; mas também é necessário proteger os jovens e inocentes.”
Arthur C. Clarke




Notas

[1] – Na verdade somos todos ateus de nascença até que nos violentem o intelecto.

[2] – O site Geocities não existe mais mas uma cópia da página pode ser vista no Internet Archive.





Referências

Aprendizado Infantil

Aprendizado em Crianças
As etapas do desenvolvimento cognitivo na teoria de Piaget

Abuso – Aspectos Psicológicos

O abuso do merchandising televisivo dirigido à criança: argumentos da Psicogenética
Diferentes Formas de Abuso
Um mal chamado co-dependência
Spiritual Abuse
Types of Abuse
Domestic Violence and Abuse Help
Domestic Violence – Types of Abuse
Structural Abuse

Doutrinação Religiosa

Religious Indoctrination & Child Abuse
Overcoming Religious Indoctrination
Is Religious Indoctrination Child Abuse?
Why is Religion Special?
Religious Indoctrination is Child Abuse
Relationship between religious indoctrination and violence, aggression
Stunting children’s development through religious indoctrination
Pesquisa Google: Religious Indoctrination
Pesquisa Google: Doutrinação Religiosa

Ver também

As Leis da Natureza
Milagres Explicados
A Origem do Pecado
A Criação de Deus e da Religião

12 respostas para Violência Intelectual contra Crianças

  1. Rebelde disse:

    AAhhhhh

    Adorei o site!!! É bom encontrar outras pessoas que pensam como eu!!!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: