O Papel do Homem no Universo

Pompéia

Corpo em Pompéia - morreu rezando

“Qual o papel do homem no universo?”, “Por que estamos aqui?”, “Qual a razão do sofrimento?” são perguntas que todos se fazem. A maioria não encontra resposta provavelmente porque procura no lugar errado ou porque espera encontrar respostas que não existem.

É comum que o homem imagine que existam punições para os maus, recompensas para os bons, provações e testes para descobrirmos se somos merecedores de… seja lá o que for. Porém, em muitos casos, os padrões esperados não se aplicam, por exemplo – por que existem bons que sofrem e maus que jamais são punidos? Nesses casos o homem lança mão da “explicação genérica universal”: razões misteriosas de deus! Teorias complexas para tentar explicar eventos cujas causas não compreendemos e, depois, hipóteses ad hoc para encobrir os furos daquelas teorias, e assim por diante.

“Você parou de bater em sua esposa?”

A pergunta “Qual o papel do homem no universo?” traz embutida a suposição de que há um papel para o homem no universo, e se assim é, esse papel deve ter sido atribuido pelo “criador”. Assim, a própria elaboração da pergunta nesses termos pressupõe:

a) a existência de um criador;
b) a existência de um plano divino;
c) que os humanos têm grande importância no universo;
d) e portanto os humanos têm um papel definido (e grandioso) nesse plano divino;

Tendo pressuposto os quatro itens acima pode-se perguntar “Qual o papel do homem no universo?”.
Suposições demais. Essa pergunta só pode ter a resposta que se espera se os itens acima forem respondidos da maneira que se espera, ou seja, afirmativamente.
O fato de jamais ter-se encontrado a resposta esperada é bom indício de que o homem errou ao pressupor a resposta a um ou mais dos itens acima.

Um erro grave nas suposições acima, com certeza, é a grande importância que o homem se atribui, que fica evidente nos grifos dos itens (c) e (d). Se o homem não tivesse um ego tão grande não teria seguido uma linha de raciocínio tão errada.

Tanto a pergunta “Você parou de bater em sua esposa?” quanto a pergunta “Qual o papel do homem no universo?” são erros de raciocínio, constituindo, mais especificamente, Falácia da Pressuposição [1].

Descendo do Pedestal

O primeiro passo para entender o papel do homem no universo, na natureza, é justamente observar a natureza. Ao observar a natureza veremos que o homem é um animal. Exatamente igual aos outros animais, nem melhor nem pior [2], apenas um animal. É fácil entender a frase acima, as palavras, mas assimilar e aceitar a idéia é extremamente difícil. A maioria das pessoas passa a vida toda sem conseguir.

O homem é um animal. Ponto final.

Tendo entendido e aceitado o conceito acima, as respostas começam a surgir naturalmente. E assim eliminamos as suposições (c) e (d) acima.
Sempre observando a natureza vemos a luta dos animais pela sobrevivência e a finalidade ulterior da vida como sendo a reprodução para a manutenção da espécie. Torna-se claro também que para a natureza os indivíduos não têm importância, a não ser para aumentar a probabilidade de reprodução. O mais importante é a espécie. Ou seja, o importante para a natureza é que diversas espécies de vida se propaguem pelo maior tempo possível. Para a natureza a morte de um indivíduo não é um drama, mas antes algo, com o perdão da obviedade, natural! Descartável e irrelevante.

Se existe um criador, ele certamente saberá que chegará o dia em que deixará de ser possível a existência de vida na Terra. Qual seria então o objetivo de se fazer com que diversas espécies de vida se propaguem pelo maior tempo possível? Bem, se há um plano talvez o plano seja exatamente esse: vida por algum tempo e depois, fim da vida. Ou então não há plano nenhum. Há apenas o acaso. E assim eliminamos a suposição (b) acima.

Continuando a observar a natureza vemos que nossos companheiros irracionais nascem, crescem, se reproduzem, morrem. Freqüentemente sofrem (dor física) quando, por exemplo, quebram a pata ao cair de algum lugar alto e morrem lentamente de inanição ou são comidos vivos por outros animais. Ninguém pensaria em atribuir algum significado esotérico a seu sofrimento.

Uma pessoa que, por exemplo, perde as pernas num acidente, fica imaginando quais seriam as razões para esse sofrimento. Uma provação? Um castigo? Do ponto de vista da natureza isso não é mais dramático que uma minhoca que tem seu corpo parcialmente esmagado por um elefante que passava, cuidando da sua vida. Acaso. Ambos estavam no lugar errado na hora errada.
O quê? Você não gostou de ver um ser humano comparado a uma minhoca?
Ah, então ainda não desceu do pedestal. Volte ao início e tente novamente.

Assim, tudo começa a ficar claro…

FAQ

P: Qual o papel do homem no universo?
R: Nenhum.

P: Por que estamos aqui?
R: Por acaso.

P: Qual a razão do sofrimento?
R: Existem várias causas para o sofrimento: incompetência ou inabilidade ou estupidez (nossa ou de terceiros), falha mecânica ou elétrica, falha na absorção de serotonina [3], azar, etc. Contudo, da maneira como é formulada, a pergunta pressupõe alguma razão mística, uma finalidade, para a existência do sofrimento. Essa não existe.

P: O que acontece após a morte?
R: Nada. A morte é o fim. Por isso aproveite bem enquanto tem!

P: Qual o sentido da vida?
R: Nenhum.

P: A professora do sobrinho da cunhada do meu compadre disse que o sentido da vida é o que damos a ela!
R: O que fazemos da nossa vida pode torná-la plena, útil, grandiosa ou não. Porém, a pergunta “Qual o sentido da vida” pressupõe que possa haver um significado (utilidade, propósito) para a existência dos seres humanos. Não há.

P: Há recompensa para os bonzinhos e punição para os mauzinhos?
R: Não necessariamente. Melhor não esperar nada.

P: “Aqui se faz, aqui se paga!”
R: Ótimo exemplo de wishful thinking. Posso citar vários exemplos de crimes que jamais foram solucionados deixando seus autores impunes, e de criminosos que morreram tranqüilamente, de velhice, numa cama quentinha.

P: Se todos acreditarem nisso o mundo será um caos! O que impedirá os homens de se tornarem criminosos?
R: Sua própria consciência, e o medo de sanções da sociedade.

P: Então a vida não tem valor nenhum?
R: Claro que tem… para nós! Afinal somos seres vivos, sem vida não existimos. Mas por que algumas coisas têm valor para uns e nem tanto para outros? Porque “valor” é um conceito relativo, não absoluto; é estabelecido por nós e só tem significado para nós. O conceito de “valor” não existe para o universo, ou seja, para as leis da natureza.

P: Você tem parte com o capeta?
R: Não existe capeta. E eu não “tenho parte” com ninguém, isso é coisa de boiola.


Decepcionantemente simples? É um bom sinal, pois em geral a verdade é simples, a mentira é que costuma ser complicada.




Leitura Complementar

A Brief History of Humankind (online course by Hebrew University of Jerusalem)

O Universo tem um propósito?

THE SAGAN SERIES – The Pale Blue Dot (HD)



“Reconhecer que a natureza não possui preferência pela nossa espécie nem contra ela requer apenas um pouco de coragem.”
James Randi (“The Faith Healers”)




Notas

[1] – Falácia da Pressuposição / Falácia de Interrogação / Questão ou pergunta Complexa

“Dois tópicos sem relação, ou de relação duvidosa, são conjugados e tratados como uma única proposição. Pretende-se que o auditório aceite ou rejeite ambas quando, de fato, uma pode ser aceitável e a outra não. Trata-se de um uso abusivo do operador ‘e’.” (Guia das Falácias de Stephen Downes – pg 3)

[2] – Na natureza é difícil falar-se em “melhor” ou “pior”. O desempenho de uma espécie, teoricamente, poderia ser avaliado pela duração da sua existência – resultado da eficiência dos recursos que desenvolveu para sobreviver. Mas esse parâmetro provavelmente não significa muita coisa. O ser humano herdou a Terra depois da extinção dos grandes répteis, os quais por sua vez, também herdaram a Terra após uma outra grande extinção. A vida na Terra segue ciclos de extinções em massa e pode-se dizer que todos serão extintos mais cedo ou mais tarde.
É possível que nossos sucessores sejam os ratos ou as baratas.

[3] – Surpreendente como possa parecer, muita gente sofre terrivelmente com uma visão extremamente pessimista da vida e terminando às vezes em suicídio apenas por causa de um desequilíbrio químico no cérebro.
Sofrimento virtual. Corrige-se o desequilíbrio químico, fim do sofrimento.





ENQUETE


A despeito das alegações do autor…











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38 respostas para O Papel do Homem no Universo

  1. Lauro Santos Couto disse:

    gostei muito dese debate

  2. Lauro Santos Couto disse:

    n sou totalmente um ateu acho q posso dizer assim mas gosto muito das matérias : física, e filosofia

  3. Menezes. disse:

    Olá Tyranossauro Rex.

    Pretendo estabelecer uma aproximação de uma espécie tida como extinta, porém, terei que observar para ir ajustando a dose do tranquilizante necessário para não interferir no processo evolutivo de ser tão pré-histórico.

    Li alguns comentários e pude perceber uma ligeira indignação por algumas técnicas de domínio de cérebros humanos que se utilizam de axiomas, principalmente aos que assim como você são fiéis a Filodoxia.

    Mas nos atendo ao tema acima discutido, desconsiderando os pressupostos (totalmente incabíveis para dialética)… e considerando que é por acaso é que estamos aqui… o que reitera o não haver significado algum…Tenho curiosidade de saber o que você pensa sobre:
    Por que, todos os animais (conscientes ou não, bons ou maus,etc…) parecem estabelecer um sentido no acaso, como você mesmo afirma na frase: ” Ou seja, o importante para a natureza é que diversas espécies de vida se propaguem pelo maior tempo possível.”
    Essa afirmação não lhe parece contraditória ao raciocínio desenvolvido?
    Ou seja, isso já não é um papel do ser humano ou sentido para qualquer outra forma de vida na natureza?

    Menezes

    • Tyrannosaurus disse:

      Olá Menezes

      […] ajustando a dose do tranquilizante necessário para não interferir […]

      Não use tranquilizante. Basta jogar um osso, isso o manterá entretido.

      Então vamos ao osso… ops… à sua pergunta.

      Essa afirmação não lhe parece contraditória ao raciocínio desenvolvido?
      Ou seja, isso já não é um papel do ser humano ou sentido para qualquer outra forma de vida na natureza?

      Como podemos saber se algo existe de fato ou é apenas um conceito relativo que só existe para nós?
      Podemos fazer um teste simples: pense num conceito e então pergunte-se se esse conceito continuaria existindo se os seres humanos não existissem. Se a resposta for não então trata-se de um conceito relativo. Por exemplo, o conceito de bem e mal, a moral, as cores, etc.
      Exemplos de conceitos não-relativos: a gravidade, as forças atômicas, etc. (leis da natureza).
      E a tendência da vida se manter e se propagar? Existe independentemente de nós. É uma lei da natureza e não algo que dá “sentido” à vida. É uma propriedade do fenômeno natural “vida”.

      • Menezes disse:

        Ola Tyrannosaurus

        ….Basta jogar um osso, isso o manterá entretido.

        …. Então vamos ao osso… ops… à sua afirmacão.

        Esta era minha curiosidade:
        …Essa afirmação não lhe parece contraditória ao raciocínio desenvolvido?
        Ou seja, isso já não é um papel do ser humano ou sentido para qualquer outra forma de vida na natureza?

        Esta foi sua resposta:
        Como podemos saber se algo existe de fato ou é apenas um conceito relativo que só existe para nós?
        Minha reflexão: … Se penso, logo existo. E se não existo de fato, logo, tudo será relativo para tudo…. Entretanto, se existo e penso todos os fatos existem e não são relativos. Estão relativos até que eu os compreenda.

        Sua Reflexão: Podemos fazer um teste simples: pense num conceito e então pergunte-se se esse conceito continuaria existindo se os seres humanos não existissem. Se a resposta for não então trata-se de um conceito relativo. Por exemplo, o conceito de bem e mal, a moral, as cores, etc. …Minha reflexão: até que eu os compreenda.

        Sua reflexão: Exemplos de conceitos não-relativos: a gravidade, as forças atômicas, etc. (leis da natureza). …. Minha reflexão: (eu as chamo de leis universais – Se botar a mão no fogo, seja por quem for, vai queimar mesmo – respeite-as até que as compreenda para respeita-las ainda mais e harmonizar-se.

        Sua reflexão: E a tendência da vida se manter e se propagar? Existe independentemente de nós. É uma lei da natureza e não algo que dá “sentido” à vida. É uma propriedade do fenômeno natural “vida”. … Minha reflexão: Não se trata de uma tendencia e sim um fato que ocorre se determinados outros fatos ocorrerem em determinada ordem e condições especificas, gerando o fato que entendemos como vida. Que fora da terra possa ter outro nome… enfim…
        Assim sendo, entendo que o sentido da vida é justamente conseguir ser vivo para se manter e se propagar. Pelo menos até que aquela espécie se extinga.
        Logo, se tenho consciência da morte e da extinção e esta não é relativa, já que existo e acredito no sentido de ser vivo, porque não valorizar este sentido na tentativa de se perpetuar. Quem sabe por aprender a interagir com as leis universais.

        Hoje acredito que todos passarão por tudo ao seu tempo…e se a vida é uma só…. deve ser bem longa e por esta razão precisamos compreender as formas… pelo menos na matéria já conhecemos algumas em seu diversos estados (sólido, liquido e gasoso).

  4. Denis disse:

    Adorei o Quiz no final do texto, rsrs. Gabaritava fácil. Penso da mesma forma.

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