Missionários e Divagações na Missa

Missionary Conquest

Missionary Conquest

Recentemente tive oportunidade de assistir a uma missa, infelizmente devido a um triste compromisso social – uma missa de sétimo dia. Antes do início do culto um homem e uma mulher repetiam várias vezes “ssssom ssssom 1-2-3” para ajustar o volume do som, o qual após mais de cinco minutos de ajustes e testes ficou devidamente calibrado para nos dar dor de cabeça em cerca de meia hora.

Após muitos anos sem entrar numa igreja estava curioso para ver que novas e extravagantes práticas estariam em moda hoje durante os cultos. Na última vez que tive de ir a uma missa – dessa vez uma formatura – as pessoas, a certa altura da celebração, cumprimentavam-se efusivamente (ou talvez nem tanto), aparentemente visando principalmente estranhos com expressão perplexa, como eu, como que querendo dizer “não fique pasmado, forasteiro, faça como nós, relaxe e entregue-se a esta bizarra orgia congratulatória!”. Felizmente essa esquisitice parece ter sido deixada de lado. Desta vez o sacerdote encerrou o culto com uma ladainha que exortava os fiéis a pedir as bençãos de deus para os missionários. Segundo o padre estes “abnegados” enfrentam todo tipo de “provação” na sua “missão evangelizadora”. A ladainha era acompanhada pelo piano ensurdecedor e àquela altura a cabeça já doía.

Divagações 1

Interessante. Será que os crentes acreditam que deus fica sentado esperando seus seguidores “pedirem bençãos” aos missionários caso contrário estes não serão “abençoados”? Ou seria o objetivo bem mais prosaico, algo como incutir nos fiéis a veneração e admiração a esses missionários e, quem sabe, com isso estimular alguns deles a tornarem-se misionários?

Divagações 2

Sempre achei estranho e quase incompreensível o conceito de “benção”.
Consultando o Aurélio encontrei: benção = graça divina. E ainda: graça = favor dispensado ou recebido; mercê, benefício, dádiva; benevolência, estima, boa vontade. Então uma benção é um “favor divino”. Algo como um “favorzito especial” para alguém – daqueles que alguns funcionários fazem em troca de uma gorjetinha, um jabaculê, uma xixica. E isso significa que aquele que não é “abençoado” não recebeu esse “favor divino”. Aparentemente esses “favores divinos” são conseguidos somente através de outras pessoas, ou seja, quando alguém pede a deus que conceda esse favor a outro.

A uma conhecida que ia batizar seu filho perguntei por que iria fazer isso. Ela respondeu que “para obter a benção de deus para a criança”.
Quer dizer que se ninguém pedir, deus não concederá “esse favor” à criança? Mas que deuzinho enjoado! Uma vez que a mãe tenha prometido seu próprio filho a deus, será concedido ao pimpolho um favorzinho, talvez uma proteçãozinha extra não dispensada aos outros. Assim como faz a máfia.
Pelo artigo 333 do código penal corrupção ativa consiste em “oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário público, para determiná-lo a praticar, omitir ou retardar ato de ofício”. Talvez não se enquadre no caso pois deus não é funcionário público. Mas me parece imoral de qualquer maneira.

Divagações 3

E já que estava com Aurélio na ponta dos dedos. Missionário é aquele que missiona; pregador de missões; aquele que faz pregações; orador sacro; propagandista. No sentido religioso é um indivíduo que faz proselitismo – atividade diligente em fazer prosélitos (indivíduo que abraçou religião diferente da sua). Concluindo: missionário é um indivíduo que sai por aí tentando diligentemente converter outras pessoas para sua religião. É evidente que a possibilidade de essas outras pessoas já possuírem uma religião é irrelevante. O missionário ignorará esse detalhe e tentará fazer com que essa pessoa abandone sua religião para abraçar a do missionário. Para fazer isso é necessário que o missionário não respeite ou dê qualquer valor à religião e à maneira de pensar dessa pessoa, pois acredita que sua religião é a verdadeira – a do outro é falsa. Aqueles que abandonam sua religião são chamados apóstatas quase que pejorativamente. Mas então religiosos desprezam quem abandona sua religião e ao mesmo tempo querem atrair apóstatas de outras religiões? Será zelo em tentar “salvar a alma” desses “perdidos” ou apenas aumentar a arrecadação do dízimo? Ao ignorar a possibilidade de a pessoa já possuir uma religião o missionário deixa claro que não tem respeito algum por esa pessoa nem por sua religião. Ainda, para poder sair por aí dedicando a vida exclusivamente a essa atividade, vê-se que o missionário não trabalha mas com certeza recebe seus proventos dessa atividade. Assim, podemos redefinir missionário:

missionário (s.m.) – indivíduo que não trabalha, e portanto não produz para a sociedade, não respeita as outras pessoas, e passa a vida tentando atrair pessoas a quem despreza e não respeita para a entidade que representa a fim de aumentar os lucros dos seus patrões, destruindo outras culturas e utilizando-se de quaisquer meios para realizar sua missão desde simples retórica e promessas de recompensas a intimidações, ameaças e, se necessário (e possível), até violência; freqüentemente participa de atividades filantrópicas usando isso como propaganda institucional da sua religião.

Resumo da ópera: ao saber que tinha de ir a uma missa pensei “que saco!”. Mas não é que isso me rendeu um textículo!




“Eles vieram com uma Bíblia e sua religião – roubaram nossa terra, esmagaram nosso espírito… e agora nos dizem que devemos ser agradecidos ao ‘Senhor’ por sermos salvos.”
Chief Pontiac (Chefe Indígena Americano)




Notas

– A imagem acima refere-se a um “divertido” joguinho da empresa “Bible Games Company” (!) o qual pode ser comprado aqui. Seja um missionário e converta o mundo você também!

– Textos relacionados:
Lapu-Lapu




7 respostas para Missionários e Divagações na Missa

  1. SEU TEXTO me soou crônica crítica anti-hipocrisia. “Crash!” Excepcional e inteligente, e não seria exagero usar a terminação “íssimo”.

    —// Tenho ojeriza a esse tecido macio, de seda e demagogia, que os religiosos urdem aos olhos das pessoas para as vitimar, sempre sob o nome de um ser que nem eles conseguem explicar com acerto, a não ser com um Livro confuso e obscuro.

    —// É pena nossa fileira ainda ser curta e tênue, meu caro. Pena que você precise digladiar com os cegos opositores, todos cheios de medo da morte e de um deus fictício.

    —// COMBATER é preciso. Mesmo que para uma Humanidade fadada ao auto-extermínio.

  2. elviro disse:

    Nós somos sociáveis, o que religião faz é “dar uma identidade social”, quanto ao conteúdo é irrelevante, apenas tem que emocionar os fiéis, você mesmo foi lá por motivo social, na saída da missa encontrou parentes e amigos que não via a anos.
    Cá entre nós isto é importante. A religião existe; deus não. Torcer para um time de futebol é semelhante…um punhado de homens correndo atrás da bola e milhares vendo…não vejo… mais vou tomar uma cerveja com os torcedores…gosto da festa.

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