Graças a Deus!

hipocrita

É muito comum em ocasiões de tragédia vermos sobreviventes comovidos agradecendo a deus por estarem ali dando aquela entrevista. O ônibus caiu da ponte, o edifício se incendiou, o avião caiu – todos morreram menos um. “- Graças a Deus!”
Curou-se da doença que mata a maioria dos doentes? “- Obrigado meu deus!”
Mas o que há realmente por trás desse pio agradecimento a deus?

Imagine-se um líder tribal que atribui uma tarefa a dois aldeões. A tarefa não é bem cumprida e o chefe mata um deles. O outro cai de joelhos e agradece por ter sido poupado.
Mas o que aconteceu com a indignação contra a injustiça, a arbitrariedade e a crueldade demonstradas por seu líder, do qual se espera atitudes justas e sábias? Por que não protesta? E a multidão que assiste calada por que não se revolta?
Só lhe ocorre jurar fidelidade eterna a aquele que não o matou não só como agradecimento mas principalmente na tentativa de garantir que continue assim, um protegido do líder.

A resposta é simples e se esconde no mais inerente egoísmo humano: “Ele morreu? Antes ele do que eu! Vou é ficar quieto antes que eu tenha a mesma sorte”.

Agora o pecador não só foi perdoado como é um protegido. Nada pode lhe acontecer enquanto contar com a graça e a proteção do Grande Líder. Abençoado com a graça do Maior de Todos. Tornou-se um intocável. Um bendito. É melhor que o outro que morreu, pois foi salvo.

A dívida de gratidão pela vida poupada e o medo de que no futuro o episódio se repita incentivam a fidelidade e a lealdade ao Chefe. Egoísmo e hipocrisia. Mas esses são defeitos naturais da espécie humana. Se houve qualquer sentimento de vergonha por esses sentimentos indignos, ela se dissipou na silenciosa cumplicidade de todos ali e, certamente, na magnanimidade do Grande Cacique que o perdoou apesar de suas qualidades vergonhosas.

Considera-se melhor que o outro pois recebeu a graça Daquele que Tudo Pode mas não deve ficar convencido e demonstrar superioridade, pois esses sentimentos arrogantes podem irritar o Chefe que então poderá puní-lo por isso. Melhor demonstrar humildade.
Em verdade sente-se feliz por estar vivo enquanto o outro está morto, porém esse sentimento lhe causa vergonha – como pode estar feliz enquanto o outro morreu? – com certeza percebe a hipocrisia e o egoísmo do sentimento e assim assume uma postura humilde e submissa para expiar seu sentimento de culpa.

O Chefe é bom, ele é mau, mas o Chefe o abençoou apesar disso. Sempre que o sentimento de vergonha retornar ele se lembrará com humildade que se o Todo-Poderoso o salvou é por alguma razão e a gratidão egoísta tomará seu lugar. Quando O Salvo demonstra falsa humildade, gratidão egoísta e lealdade interesseira está em verdade tentando manipular o Líder, afinal se o enganou uma vez com sua falsidade, pode continuar enganando. Ou talvez não tenha enganado; talvez o esperto Chefe saiba dos reais sentimentos dele mas ainda assim fez vista grossa e o perdoou. Talvez seja uma simbiose: o Líder precisa de seus fiéis hipócritas e estes precisam de seu Líder corrupto.

Em geral nenhum sobrevivente ousaria questionar, como faço aqui, por medo de parecer ingrato e ser punido com o “cancelamento da benção”, ou com o não-salvamento no próximo acidente. O simples questionamento “por que o outro morreu e eu não” parece ingrato, herético e perigoso.

A pessoa alegremente atribui sua sobrevivência a deus. Mas se deus é responsavel pela sua sobrevivência então também é responsável pela morte dos outros, pois podia tê-los salvo mas não o fez por qualquer razão. Questionar que razões seriam essas também não é conveniente, pode parecer ingratidão. “Se o Alfa-e-o-Omega, Aquele Que Fez o Homem com Mamilos, achou por bem proceder assim, quem sou eu para censurá-lo?”
Esse pensamento é convenientemente evitado pois levaria o agradecido fiel a um paradoxo: Se deus o salvou é porque é bom. Mas se é bom porque não salvou todos?

Egoísmo, medo, hipocrisia, cinismo, arrogância, falsidade são o que se esconde atrás da pretensa humildade piedosa e da gratidão interesseira.

Claro está que em geral não se trata de maldade. É apenas o instinto de sobrevivência falando alto e sobrepondo-se à ética e ao altruísmo. Natural.


Esse quadro tão comum, complexo e grotesco, eu chamo de “Síndrome Ana Maria Braga[1].



“PRECE HONESTA – Querido Senhor, me ame hoje e para sempre, abençoe minha alma e consciência todos os dias, concorde com todas as minhas decisões, puna meus inimigos até que eu esteja satisfeito, me dê grandes quantidades de dinheiro, prometa sempre me ajudar a vencer, olhe pro lado quando eu trapacear, justifique minhas desculpas e acredite em todas as minhas mentiras, obedeça meus desejos, e reserve a parte mais luxuosa do paraíso só pra mim. Vou ser agradecido contanto que você faça o que digo. Amém.”
Wally Kaspers (LUMPEN vol. 5, Nos. 8/9)



Notas

[1] – Nenhuma ofensa implícita, é claro. Trata-se apenas de um caso simbólico pela notoriedade.



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A Criação de Deus e da Religião
Why our brains do not intuitively grasp probabilities (Scientific American) (Uma tradução deste texto pode ser lida aqui).

30 respostas para Graças a Deus!

  1. J. Tadeu disse:

    Esse texto, apesar de “antigo” (tempos modernos…) faz todo o sentido. Realmente parece haver algo de instintivo – e o egoísmo, o medo e outros sentimentos parecem ser instintivos – na simples expressão “graças a deus”, que vai além de ser um modo de falar tipicamente brasileiro. Talvez seja realmente uma espécie de expiação ou válvula de escape para não ver aquilo que não queremos ver.

  2. Maria disse:

    Eu gostei da parte que ela fala, o ônibus caiu da ponte, o edificio se encendiou, o aviao caiu-todos morreram menos um- “graça a deus. Entao quando nós estamos pasado alguma coisa e deus livra a guente ,nós damos graça a deus

  3. Denis disse:

    Diria que para muitas pessoas é um hábito, ou seja, não refletem conscientemente sobre o agradecimento que estão fazendo naquele momento… Obviamente, caso refletissem um pouco continuariam fazendo da mesma forma. O “problema” na verdade seria se refletissem ao menos mediamente porque dai, certamente, chegariam a conclusões parecidas com as que foram descritas acima… em resumo, ligam o automático e vão “tocando” a vida! É possível fazer mais.

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