Papai Noel e Papai do Céu

Quando eu tinha uns seis ou sete anos fiz o primeiro ano do primeiro grau (1º ano primário, como se chamava então) num colégio de freiras. Foi o único ano que estudei nessa escola, a partir do segundo ano, felizmente, me transferi. Certa vez fomos reunidos na capela onde um padre viria para responder nossas perguntas, uma por aluno. Infelizmente não me lembro mais as perguntas feitas pelos meus colegas mas lembro-me bem da minha…

Perguntei ao padre “por que existe dor?”. O padre deu uma resposta científica – a explicação científica para a dor numa versão simplificada para crianças. Lembro-me que me senti extremamente frustrado pois não era aquilo que eu queria saber. Mas perdi a chance, era apenas uma única pergunta por aluno. O que eu queria perguntar era “por que havia sofrimento no mundo?” mas com apenas seis ou sete anos não pude ser mais claro na formulação da minha dúvida. Mesmo com aquela pouca idade eu já percebia que existia sofrimento no mundo, embora eu, como criança, ainda desconhecesse essa face da realidade na minha própria pele. Para mim era evidente que eu não perguntava sobre a dor fisiológica pois se fosse esse o caso eu iria perguntar a um médico, não a um padre. Perguntei a um padre porque me disseram que ele era um representante de deus. Devia saber a resposta. Hoje sei que ele deve ter entendido muito bem minha pergunta… eu era criança, ele não. Se preferiu bancar o desentendido foi porque ele também não sabia a resposta.

Na mesma época, pessoas da minha confiança, pessoas encarregadas da minha educação, além de me contar histórias sobre o “Papai do Céu” [1] também me contavam sobre o Papai Noel. O “Papai do Céu”, segundo George Carlin, é aquele “homem invisível, que vive no céu e vigia tudo o que fazemos, o tempo todo. O homem invisível tem uma lista de 10 coisas que ele não quer que a gente faça. Se você fizer qualquer uma dessas coisas, o homem invisível tem um lugar especial, cheio de fogo, fumaça, sofrimento, tortura e angústia onde ele vai lhe mandar viver, queimando, sofrendo, sufocando, gritando e chorando para todo o sempre. Mas ele ama você!“. Papai Noel era mais simpático… um velhinho bonachão com uma roupa engraçada e que trazia presentes. Exigia que você estudasse e fosse bonzinho durante o ano mas parecia ter uma memória ruim.

Talvez pelo fato de jamais vermos o Papai Noel nem qualquer vestígio da sua existência ou passagem pela nossa casa, mesmo que pessoas da nossa confiança insistam na sua existência, eu nunca tenha dado grande importância ao Bom Velhinho. O que me interessava era os presentes, confesso. Por isso a inexistência de uma chaminé para o Noel nunca me inquietou. Papai Noel podia até ser um velhinho simpático, mas eu jamais o via. Era para mim algo vago demais.

Conforme o tempo foi passando fui me dando conta que Papai Noel era uma farsa. Ninguém veio me dizer que ele não existia, ninguém me provou que ele não existia. Eu simplesmente entendi. Compreendi como as coisas funcionavam. Entendi como os presentes apareciam. Com mais tempo entendi o porquê da lenda, porque tais mentiras surgem e passam de geração a geração. Não foi algo que aconteceu de um dia para o outro, foi um processo. Provavelmente o mesmo processo deve ter ocorrido com você, leitor [2].

Também por essa época eu fui forçado a fazer a “primeira comunhão” e “crisma“. Para quem não conhece, estes são rituais cristãos impostos às crianças como parte de um processo de lavagem cerebral. E lembro-me bem que fui submetido a esses rituais contra a minha vontade. Lembro-me bem que eu disse “não quero fazer!” mas a resposta foi simplesmente “tem que fazer!”. Jamais fui numa missa por livre e espontânea vontade, sempre fui forçado a ir. Isso pode parecer estranho aos jovens de hoje mas é que na época nós respeitávamos e obedecíamos nossos pais.
Assim foi pelo menos até a adolescência, depois já não era mais possível me obrigar. Meus pais não eram tolos, se a lavagem cerebral não havia funcionado até então, não adiantava mais.

As mesmas pessoas, da minha total confiança, que me diziam sobre Papai Noel, também me diziam sobre o “Papai do Céu”. Eu até acreditava. Mas não dava muita bola. Acreditava apenas porque eram pessoas nas quais eu confiava. Mas para mim era algo que não tinha qualquer ligação com a minha realidade. Normalmente quem acredita nessas entidades sobrenaturais também as adora, venera, louva, respeita, teme e rasteja diante de suas imagens. Eu apenas acreditava porque me diziam que era assim, apenas aceitava como sendo verdade, mas sem as implicações comuns desse acreditar. É como se dissessem a você, leitor, que descobriram vida microbiana no planeta XYZ – você aceitaria como sendo verdade e diria “ah! que interessante!”, e só… isso não teria qualquer influência na sua vida diária. Pois para mim aquelas pessoas estranhas, vestidas com panos, que viveram no meio do deserto há milhares de anos, fazendo coisas estranhas que hoje, curiosamente, não acontecem mais, como conversar com arbustos flamejantes, abrir mares com um cajado, andar sobre a água, ressuscitar, eram algo muito vago, distante. Assim como Papai Noel no seu trenó voador. Se diziam que era verdade eu acreditava mas, sinceramente, não dava a mínima a essa gente. Era assim que eu via.

É comum ouvirmos o argumento de que para afirmar a inexistência de algo seria necessário ter todo o conhecimento do universo. Não é necessariamente assim. Por exemplo, como podemos afirmar que o Super-Homem não existe? Em primeiro lugar, sabemos que tal entidade violaria as leis da natureza – isto não constitui uma prova da sua inexistência mas é um forte arguemento para duvidarmos da sua existência; em segundo lugar, porque sabemos que é apenas um personagem de história em quadrinhos criado pelos cartunistas estadunidenses Joe Shuster e Jerry Siegel em 1938. Podemos chamar esta última de “razão histórica”, e esta, para qualquer pessoa de bom-senso, constitui o golpe de morte na possibilidade de existência do Super-Homem. O mesmo raciocínio vale para o Homem-Aranha e para o Papai Noel; no caso deste último fica mais difícil rastrear a história da sua criação porém ainda é possível.

E você, leitor, como descobriu que Papai Noel não existe? Por acaso alguém provou a você que o Noel não existe? Apresentou teorias complicadas, equações complexas, argumentos ontológicos? Supunho que não. Com ou sem a ajuda de alguém e provavelmente na faixa dos nove aos doze anos, você acabou descobrindo e entendendo. E então todas aquelas perguntas sem resposta foram respondidas: “Porque jamais vemos o Papai Noel? Como ele entra na minha casa mesmo sem chaminé? Como ele entra na casa de todas as criaças do mundo numa única noite? Como ele sabe o que fazemos o ano todo? e etc.” Quando descobrimos a verdade e entendemos tudo, acaba-se o mistério.

O mesmo processo de descoberta vale para outras entidades sobrenaturais: o “bicho-papão”, a loira do cemitério, “fada do dente” ou quaisquer outras entidades sobrenaturais que você ouviu falar quando criança (varia muito de época para época, região para região e até de família para família).

Também é comum ouvirmos dizer que devemos acreditar sem exigir provas, devemos apenas “ter fé”. E se eu lhe disser, leitor, que eu sou deus! Você acreditaria ou exigiria provas? Se sou deus então devo ser capaz de fazer uns truques bem convincentes, nada de cartas de baralho! E se eu disser que sou dono do Viaduto do Chá e vou lhe vender baratinho e você poderá fazer fortuna? Você compra o Viaduto, alegremente, sem exigir provas de que sou mesmo o dono? Afinal, a quem interessaria que as pessoas acreditassem em alguma coisa sem exigir provas? Esse seria o sonho de todo estelionatário. Somente a eles e a pessoas mal intencionadas em geral interessaria um mundo de otários. O que é verdade pode ser comprovado, não se deve temer o questionamento.

Ao entrar na adolescência eu já não acreditava mais em Papai Noel e ao sair dela já estava questionando a existência do “Papai do Céu”. Nos dois casos foi um processo lento, o processo da descoberta da verdade e do entendimento. O que acontece é que, conforme crescemos, vamos desenvolvendo algo que, por falta de nome melhor, chamarei aqui de “bom-senso”. Mesmo crianças que nunca entraram numa escola ou receberam qualquer educação em casa desenvolvem esse “bom-senso” simplesmente pela observação da natureza e que podemos testar assim: diga a uma criança de aproximadamente uns doze anos de idade que viu um cachorro que fala e ela provavelmente fará uma expressão de desconfiança e dirá “mostre-me! quero ver esse cachorro!”. Pois é algo que ela nunca viu. Diga à mesma criança que viu alguém que anda sobre a água e ela lhe dirá a mesma coisa (contanto que ninguém jamais lhe tenha corrompido o “bom-senso”). De maneira geral pode-se dizer que crentes são como crianças que ainda acreditam em Papai Noel por terem tido seu “bom-senso” danificado.

Por que eu deixei de acreditar em Papai Noel bem mais rapidamente que deixei de acreditar no “Papai do Céu”? Evidentemente há uma relutância em desacreditar neste último, talvez porque tenhamos uma forte necessidade de alguém que nos proteja e tome conta de nós. Por isso a sensação de desamparo é um dos primeiros sentimentos a assaltar os que ousam questionar a existência de um deus; essa sensação causa medo; e o medo é sentimento forte o suficiente para fazer recuar a maioria (por isso dizem que “não há ateus num avião caindo”). É uma sensação provavelmente parecida com a de um náufrago que abandona a segurança de sua ilha para entrar no oceano desconhecido. Porém com o tempo percebemos que desamparados estamos todos, tanto os que creem quanto os que não creem (de fato, naquele avião caindo, morrem tanto ateus quanto crentes). As pessoas em geral precisam da idéia de um deus mas o Noel, não, este é dispensável, na ausência deste fica apenas uma saudade da infância – sentimento inofensivo. Isso também explica porque a grande maioria das pessoas rejeita os protestos do seu “bom-senso” por toda a vida jamais questionando algo que uma criança de doze anos questionaria se não tivesse tido seu intelecto violentado. O resto é psicologia.



“Our ignorance is God; what we know is science.”Robert Ingersoll



Notas

[1] “Papai do céu” é uma expressão “cuti-cuti” para se referir ao deus cristão, especialmente ao falar com crianças. A expressão convenientemente atende a uma necessidade básica de proteção dos humanos principalmente diante da constatação que nossos pais reais não são eternos.

[2] (Se você não é politicamente correto pode pular esta nota).
É totalmente desnecessário e estilisticamente abominável escrever-se “leitor e leitora”. Na língua portuguêsa (e em várias outras) a forma masculina pode ter dois significados: “leitor” (homem) e “leitor” (genérico, homem ou mulher). Quando digo “você, leitor” estou usando a palavra no sentido genérico. O mesmo vale para “os deputados e as deputadas” ou “os alunos e as alunas” e até o mais absurdo de todos, proferido por José Serra num discurso: “todas e todos” (“todos”, como sugere a palavra, já engloba todos! Homens e mulheres!) Isso pode desagradar a feministas radicais, manginas e outros bobalhões politicamente corretos mas a gramática é assim.



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2 respostas para Papai Noel e Papai do Céu

  1. Você já se perguntou se ser ateu por mágoa da religiosidade tóxica de outros não seria tão ruim para si mesmo como ser um religioso fanático ou fundamentalista? Que, assim como há péssimos religiosos, também há péssimos ateus? E que tanto crentes quanto descrentes podem ser iludidos, uns por seu fervor, outros por seu ressentimento? Que as pessoas se tornam ateias por reação à falsidade dos crentes, e se tornam crentes por causa da sinceridade de outros crentes? Não defendo qualquer crença, assim como não apoio qualquer descrença. O caminho mais difícil é o da moderação.

    • Tyrannosaurus disse:

      Conforme expliquei no texto deixei de acreditar em deuses pelo mesmo motivo que deixei de acreditar em Papai Noel: porque cresci, me tornei adulto, descobri a verdade. As pessoas se tornam ateias porque descobrem a verdade não por reação a nada. Reações acontecem rapidamente, o processo de descobrir a verdade é lento.

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