Wishful Thinking

Wishful ThinkingWishful thinking é uma expressão da língua inglesa, ainda sem equivalente em português. E bem precisa de um por ser relativamente difícil de pronunciar (assim como o temido “bluetooth”). Trata-se de um tipo de falácia, ou erro de raciocínio, que consiste no seguinte:

“eu gostaria (muito) que X fosse verdade (ou mentira)
portanto X é verdade (ou mentira)”

Colocado dessa maneira parece absurdo que alguém possa pensar assim mas é algo muito mais comum do que parece e ultimamente está até na moda.

Algumas características deste tipo de falácia:

• aparente ingenuidade / simplicidade
• otimismo (ou pessimismo) exacerbado
• têm algo a ver com memória seletiva
• dão ótimas frases de efeito em discursos para impressionar a platéia
• constituem excelentes frases para manuais de auto-ajuda
• abundam no discurso politicamente correto e nas religiões

Vejamos um exemplo:

“Todos são iguais perante a lei!”

Repare no ponto de exclamação no final. É uma daquelas frases que as pessoas estufam o peito e enchem a boca para declarar com orgulho e pompa. Até deveria ser verdade, mas não é. Por acaso as pessoas que fazem tal afirmação (tão comum) desconhecem todas as leis que dão privilégios a uns em detrimento de outros? Será que não sabem que juízes se aposentam com salário integral enquanto elas próprias receberão apenas uma fração do que ganhavam? Será que não sabem que parlamentares têm direito a “foro privilegiado” e elas não? Será que não sabem que pessoas com curso superior têm direito a “cela especial” e outras não? Desconhecem a existência da fiança que separa quem pode pagar dos que não podem? Etc, etc.
Na verdade sabem, por isso a afirmação não revela ingenuidade ou ignorância mas antes um desejo. A pessoa não afirma o que “é” mas o que “deveria ser”, na sua opinião, ou seja, aquilo que deseja.

Uma maneira bem clara de explicar o que é wishful thinking é como sendo “a expressão não da verdade mas de um desejo”. O desejo de que afirmação seja verdadeira é tão forte que a pessoa ao afirmar em voz alta, com forte convicção, tom bombástico, está tentando convencer a si própria da veracidade da sua afirmação. E se pode convencer a si mesma com a artimanha quem sabe não poderá convencer seu interlocutor, pensa.

O Blog da Crítica sugere o termo “Falácia da Esperança” para wishful thinking. É um bom nome, já que se trata de uma falácia, um erro de raciocínio; e da esperança – esperança ou desejo de que algo fosse verdade. Por essa razão eu sugeriria também a denominação “Falácia do Desejo”. Outra sugestão mais espirituosa seria “síndrome Seicho No Ie” (ver abaixo).

Mais alguns exemplos:

“Todos são iguais e têm os mesmos direitos!”

Uma frase com duas afirmações e as duas falsas. É uma pequena variação da anterior e bem ao estilo dos “politicamente corretos”. Deveria ser assim também mas não é. As pessoas não são iguais e não têm os mesmos direitos. E isso está claro na legislação. De fato, o “politicamente corretismo” é uma tentativa de fazer um agrado ao ego das pessoas com eufemismos ou até mentiras, se necessário. “O Wandherkleysson não mora numa favela mas numa comunidade!”. Legal! Assim o Wandherkleysson troca o constrangimento pelo orgulho, a sociedade fica mais tranqüila ao amenizar sua revolta, o governo não precisa gastar tanto com urbanização e todos ficam felizes. Não será surpresa, então, a constatação de que o “politicamente corretismo” é uma forma de wishful thinking. Ou, para abusar da cacofonia: o wishful thinking abunda no “politicamente corretismo”!
Vejamos então mais um exemplo da cartilha dos politicamente corretos:

“Ninguém é burro, todo mundo é inteligente!”

Bonito isso! Pena que também não é verdade. Claro que tudo depende da definição de “inteligência” mas qualquer que seja a definição sempre haverá a média, os acima da média e os abaixo dela. O que se pretende, na verdade, com essa frase é fazer um afago no ego dos burros… e no de seus pais. Asinum asinus fricat. Já imaginou, leitor, que triste a constatação de que seu filho é um completo tapado? Não será bom e reconfortante consolo para os desafortunados pais de uma criança burrica ouvirem tal afirmação? Haverá, assim, alguma esperança para ele. O garoto não é burro.. apenas… bem.. tem “outro tipo de inteligência”. Não será uma sumidade mas… deve ser bom em alguma coisa, o estrupício!
Ah, a natureza… sempre tão politicamente incorreta…

Mas voltemos aos exemplos…

“Todos são iguais perante a lei!”

Esta é uma variante da que foi discutida acima. Reparou que em todos os exemplos dados até agora aparecem as palavras ‘todos’, ‘todo mundo’, ‘ninguém’?

Dica: Para não errar na hora de formular leis que descrevem fenômenos humanos ou sociais evite palavras como ‘todos’, ‘ninguém’, ‘sempre’, ‘nunca’, ‘jamais’ e similares; substitua-as por variantes mais prudentes, e realistas, como ‘a maioria’, ‘a minoria’, ‘muitos’, ‘poucos’, ‘em geral’, ‘raramente’, etc.

Por exemplo:
“Todos os homens são safados!”

Versão corrigida:
“Muitos homens são safados!”

(Este serve também como um exemplo de corporativismo.)

Vamos em frente:

“O corpo humano é uma máquina perfeita!”

Wishful thinking é desejo. Qual seria o desejo neste caso? Se o corpo humano fosse de fato perfeito seria um argumento a favor dos criacionistas, ansiosos em alardear a perfeição da criação divina. Mas nem é preciso fazer faculdade de medicina para ver alguns “furos” do corpo humano. Os dados abaixo foram tirados da mídia:

• 85% das pessoas terão artrose a partir dos 60
• 75% das pessoas tem, teve ou terá dor nas costas (e o autor deste texto faz parte desse número)
• 60% das mulheres adultas têm mioma
• 35% (dos brasileiros) têm alguma alergia
• 30% das pessoas tem rinite alérgica
• 25% (dos brasileiros) têm hipertensão
• 5% a 17% têm dislexia
• 10% a 20% tem asma
• 10% a 15% das mulheres sofrem de depressão pós-parto
• 14% da população tem alguma deficiência
• 11% tem, teve ou terá alguma fobia
• 1% é psicopata
• o sistema respiratório das aves é mais eficiente que o nosso permitindo que elas obtenham duas vezes mais oxigenio que nós;
• os dentes dos dinossauros eram muito mais eficientes que os nossos e quando um se quebrava crescia outro no lugar;
• as mulheres perdem muito ferro pelas abundantes menstruações e com o avanço da idade perdem muito cálcio, estando mais sujeitas à anemia e osteoporose;
• os homens têm mamilos! E um de seus pontos fracos, os testículos, pendem vulneráveis fora do corpo!

E etc, etc.
Temos que admitir, o corpo humano é um perfeito exemplo… de imperfeição!

“Quem não deve, não teme!”

Este até já se tornou um dos bordões do Datena. E para contestá-lo posso dar um exemplo pessoal: em 2001 tive meu carro roubado. O ladrão, com o revólver na minha cabeça, não quis só o carro mas também minha carteira; na ocasião ofereci que levasse o dinheiro mas deixasse meus documentos, mas ele fez questão de levar tudo. Meus documentos podem ter sido usados para abrir empresas de fachada ou para aplicar diversos outros golpes e, portanto, a partir desse dia eu corro o risco de ser preso injustamente pelos crimes de outras pessoas. Foi exatamente isso que aconteceu com um homem no Paraná (Homem é preso 4 vezes após ter documentos furtados).
Quem já teve seus documentos roubados não deve… e teme! E mesmo quem (ainda) não os teve, como pode não temer com tantos casos de prisões injustas? Cito alguns:
Inocentes Presos
Um inocente preso há quatro anos
Motorista inocente passa 4 anos preso em São Paulo
Inocente fica preso por 19 anos e morre ao saber de indenização
Inocente esteve preso 27 anos
Japonês é libertado da prisão após 48 anos no corredor da morte

Com certeza o leitor já entendeu a idéia. Por isso vou citar mais alguns exemplos sem maiores explicações:

“A justiça tarda mas não falha!”

“A voz do povo é a voz de deus!”

“Deus é brasileiro!” (curioso exemplo de wishful thinking coletivo)

“A vida começa aos quarenta!”

“No final a verdade sempre aparece!”

Doença não existe! (Seicho No Ie)

E mais uma pérola do Datena:

“Deus protege as crianças e os bêbados!”

Como se vê pelos exemplos podemos reformular a definição de wishful thinking para: “ter algo como verdadeiro apenas por desejar que assim seja” e, substituindo-se “ter algo como verdade (sem provas)” por “acreditar”, temos: “acreditar em algo, ou que algo é verdadeiro, mesmo sem provas, apenas por desejar que assim seja”.
Fica claro porque a religião é uma forma de wishful thinking.
Então vejamos alguns exemplos sacros:

“O Senhor é meu pastor e nada me faltará.”

“Aqui se faz, aqui se paga!” (“Os bonzinhos são recompensados e os mauzinhos são punidos.”)

“Você vai para o inferno, ateu!”

“Jesus te ama!”

Sim… O Wishful thinking na religião abunda!
Ideologias em geral podem ser dogmáticas como religiões e podem ter o mesmo efeito que estas em pessoas com preguiça de usar seu intelecto ou desprovidas de qualquer discernimento (militantes). Vejamos alguns exemplos em que é necessária uma grande dose de fé (desejo de que seja verdade):

“O comunismo é a ditadura do proletariado.”

“Lula não teve nada a ver com o ‘Mensalão’!”



“If you look for truth, you may find comfort in the end; if you look for comfort you will not get either comfort or truth only soft soap and wishful thinking to begin, and in the end, despair.” – C. S. Lewis

“Wishful thinking is not idealism. It is self-indulgence at best and self-exaltation at worst. In either case, it is usually at the expense of others. In other words, it is the opposite of idealism.” – Thomas Sowell

“Wishful thinking is one thing, and reality another.” – Jalal Talabani





Leitura Complementar

Wishful Thinking (Wikipedia em inglês)
Wishful Thinking (Wikipedia em português)
Auto-Ilusão (Dicionário do Cético)
A Brief History of Humankind (online course by Hebrew University of Jerusalem)









Qualquer eventual anúncio publicitário que apareça nesta página terá sido colocado pelo WordPress e não por mim. Eu não indico ou recomendo qualquer produto, serviço ou site pago.





4 respostas para Wishful Thinking

  1. T. Rex, sem querer contrariar o seu texto que se verifica que se verifica ser corretíssimo, quero comentar sobre a expressão ““Todos são iguais perante a lei!””. Ela, ao ser colocada na Constituição, não quis induzir a todos a acharem que o lixeiro tem os mesmos direitos que um presidente ou um senador da República, mas sim afirmar que, se esse lixeiro um dia for eleito senador da República, ele terá os mesmos direitos e prerrogativas do senador anteriormente citado. Em outras palavras, “Todos são iguais perante a lei!” significa que “todos serão tratados igualmente ou na medida de suas igualdades e desigualmente na medida de suas desigualdades. Ou seja, todos os lixeiros serão (ou deverão ser) tratados igualmente a todos os lixeiros e todos senadores serão tratados igualmente a todos os senadores. Isso não invalida em nada a sua argumentação, apenas explica o verdadeiro significado da norma constitucional.

  2. Jhonatan disse:

    Sinceramente eu estou amando seu blog. Texto incrível, enquanto você iria expondo a verdade eu ia rindo. Não porque acho que seu pensamento é engraçado, porque é verdade e eu acho incrível como a maioria das pessoas (principalmente os brasileiros) podem ter um pensamento tão patético…

  3. Denis disse:

    Bacana o texto, concordo com muito do que foi escrito. Só tenho dúvidas em relação a utilização da expressão “politicamente correto” neste (e em outros) contexto(s). Afinal o que se deseja informar? No geral, para mim, não acrescenta muito a nenhuma discussão pois me parece sempre um “argumento” pessoal. (-;

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: