O Significado do Natal

As Primeiras Festas

Dionisio (Baco)

Dionisio (Baco)

Se houvesse supermercados há milhares de anos na Europa, nossa vida, quem diria, seria bem diferente. Como não os havia dependiam totalmente da agricultura local.

Começavam a semear na primavera ou no verão para colher no outono e assim ter comida durante o inverno e o ano seguinte. Já ao final do outono as folhas começam a amarelar e cair, os animais desaparecem, a natureza adormece para sobreviver ao frio.

Os dias vão ficando mais curtos e as noites mais longas até o auge do ciclo que ocorre em 21 de dezembro, chamado de solstício de inverno, quando o dia é o mais curto e a noite é a mais longa do ano. Durante o inverno gelado a neve cobre tudo e praticamente não há o que colher ou caçar ou pescar, nada para comer, exceto o que conseguiram colher na safra anterior. A natureza pacere morta. A partir daí, novamente, a duração das noites começa a diminuir e a duração dos dias começa a aumentar, progressivamente, até a primavera, quando a neve começa a derreter, as plantas voltam a ficar verdes, as flores reaparecam, os animais voltam. É o renascimento da natureza. A agricultura dependia inteiramente desse ciclo da natureza e as pessoas, que dependiam da agricultura, também acabavam por depender dos ciclos naturais. O solstício de inverno era uma ocasião marcante, pois simbolizava o início da retomada, por assim dizer. Várias culturas tinham festas nessa data. Os gregos celebravam as Leneanas, festa que provavelmente deu origem à festa que os romanos celebravam entre 24 de novembro e 25 de dezembro, chamada Brumalia, em honra dos deuses Deméter (deus das colheitas), Cronos (Saturno) deus do tempo e patrono das colheitas e Baco [1] (Dionisio), deus do vinho.
Em 46 AEC, Julio César no seu calendário Juliano estabeleceu 25 de dezembro como a data do solstício de inverno na Europa (Bruma).
Essas festas eram muito importantes e populares e eram celebradas, com pequenas variações, por diversos povos, em geral no hemisfério norte, onde as estações são mais marcadas, mas também no hemisfério sul havia alguns povos com festas similares.
Na primavera também aconteciam festivais para celebrar o “renascimento da natureza“.

Jesus

Normalmente não se registravam as datas de nascimento e morte das pessoas, exceto quando eram muito “importantes”, reis e etc. Pessoas comuns, em geral, nasciam e morriam anonimamente, sem registro ou qualquer menção. Às vezes nasciam anônimas mas tinham a data da morte registrada após se tornarem conhecidas por alguma grande realização. Jesus nasceu e morreu um zé-ninguém (se é que de fato existiu), como a maioria de nós, mortais, não se sabe exatamente quando nasceu ou morreu e até o século IV não se celebrava seu nascimento, ou seja, mais de 300 anos após sua morte. A menção mais antiga conhecida ao 25 de dezembro como Natal está no calendário filocaliano de 354 EC.
Mas por quê as coisas mudaram a partir dessa época? Afinal o que aconteceu no século IV?

Constantino, o Execrável

Constantino I

Constantino I

No século IV o império romano estava dividido entre o império do ocidente, com capital em Roma, e o império do oriente, com capital em Constantinopla. O império do ocidente, porém, estava em franca decadência, sob constantes ataques, fraco e se desintegrando. O imperador Constantino I, do império do oriente sonhava em reunificar os dois impérios e restaurar a grandeza do império romano. Teve, então, a idéia de levar a cabo a tarefa por meio da religião. Precisava de uma religião que conseguisse atrair a população romana de alguma maneira; a tradicional religião politeísta dos romanos não previniu a queda, já não servia; havia o Mitraísmo, popular entre oficiais romanos, mas era muito elitista, precisava de algo popular… o cristianismo era ideal. Uma religião de origem simples e pobre, voltada para os pobres: dos pobres para os pobres. Podia dar certo! Constantino inventou um pretexto (uma visão) e se converteu ao cristianismo. Existem dúvidas a respeito da sinceridade da sua conversão, mas até ali estava tudo dando certo, só faltavam alguns detalhes para ajudar a difundir a sua nova religião entre o populacho. Constantino, então, convocou a cúpula da Igreja Cristã e disse:

– Ave [2], Cibi Leonis! [3] Vou fazer uma oferta que vocês não podem recusar!

Bem, as palavras podem não ter sido exatamente essas, mas vale a intenção. E explicou sua idéia: adotaria a religião cristã e a espalharia pelo império romano, vale dizer, pela maior parte da Europa. Era a chance do cristianismo passar de religião secundária e perseguida para principal religião do mundo. Porém, fazia algumas exigências… algumas pequenas modificações nos dogmas da religião, necessárias, segundo seu plano, para melhor obter os resultados desejados. Para começar, os romanos, acostumados a deuses com figura humana, não iriam aceitar bem o invisível deus hebreu do velho testamento. Era necessário que Jesus fosse “promovido” a deus. “É uma chance que não se pode deixar escapar… arranja-se!” Foi, então, realizado o Primeiro Concílio de Nicéia em 325 EC, um encontro de bispos, onde se resolveriam alguns problemas gerados por essa nova modificação.
O principal problema seria como conciliar o novo deus Jesus com o deus hebreu, o qual devia ser único. Inicialmente Jesus era apenas um profeta, como resolver isso? Bem, Jesus seria filho de deus, e ao mesmo tempo, deus. Duas manifestações da mesma entidade.
“- Não, não, dois não é bom… tem de ser três, número que simboliza a perfeição no misticismo tradicional. Três manifestações: o Pai, o Filho e… o Espírito Santo!” (canon VII).
“- Espírito Santo? Mas afinal o que é isso?”. Bem, como diria Chicó: “Não sei, só sei que foi assim”.
E assim, costurou-se às pressas uma história capenga sobre três entidades que são uma e que a maioria dos cristãos não entende até hoje. “- É mistério! É dogma!”.
Fazia-se necessário também inventar uma data de nascimento para Jesus. Escolheram 25 de dezembro (“a-ha! o solstício de inverno!”) [4], pois assim essa nova festa tomaria o lugar da Brumalia romana para que o novo deus cristão tomasse o lugar dos deuses romanos.
A data da morte não era tão importante mas a data da ressurreição era. A ressurreição deveria coincidir com as festas do início da primavera, que celebravam o renascimento da natureza após o longo inverno. Ovos, nascimento, renascimento, ressurreição… a Páscoa! Perfeito! [5]

No final das contas o plano de Constantino não funcionou, o império romano afundou e o cristianismo prosperou, espalhando pelo mundo a celebração do Natal. Pode-se dizer que o sucesso do cristianismo foi um sub-produto do golpe de Constantino I (…o Execrável!) [6].

Feliz Brumalia / Saturnalia / Bacchanalia !




“Christians make great lion food!” – Tyrannosaurus Rex




Notas

[1] As festas em homenagem a Baco eram chamadas de “Bacanais” (Bacchanalia) que acabaram virando sinônimo de orgia.

[2] Saudação romana.

[3] Vocativo plural de “Cibus Leonis” (comida de leão).

[4] Em 525 EC, Dionysius Exiguus calculou (incorretamente) que o ano de nascimento de Jesus seria 1 AEC, ou, melhor dizendo, calculou que o nascimento de Jesus teria sido há 524 anos daquela data.

[5] Páscoa e Natal provavelmente também se relacionam com outras festas, como Zagmuk dos mesopotâmios e Sacae dos persas e babilônios.

[6] Assim como a sucesso da Microsoft foi um sub-produto de um golpe da IBM, mas isso já é outra história…



Leitura Complementar

O Significado da Páscoa

Was Jesus Born on December 25?

Christmas Origin – Meaning Revealed

When was Jesus Christ born? Was Jesus born on December 25 – Christmas Day?

The Top 10 Reasons Why I Don’t Celebrate Christmas

O Natal Veio do Paganismo

Quem escreveu a Bíblia?

Richard Carrier takes the Christ out of Christmas







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6 respostas para O Significado do Natal

  1. Oiced Mocam disse:

    O principal problema seria como conciliar o novo deus Jesus com o deus hebreu, o qual devia ser único. Inicialmente Jesus era apenas um profeta, como resolver isso? Bem, Jesus seria filho de deus, e ao mesmo tempo, deus. Duas manifestações da mesma entidade.
    “- Não, não, dois não é bom… tem de ser três, número que simboliza a perfeição no misticismo tradicional. Três manifestações: o Pai, o Filho e… o Espírito Santo!” (canon VII).

    “- Espírito Santo? Mas afinal o que é isso?”. Bem, como diria Chicó: “Não sei, só sei que foi assim”.

    E assim, costurou-se às pressas uma história capenga sobre três entidades que são uma e que a maioria dos cristãos não entende até hoje. “- É mistério! É dogma!”.

    ESSA FOI MUITO BOA!!!!Rsrsrsrsrsrrsrrsrsrsrsr!!!!!!!
    Nota:
    JESUS HISTÓRICO NÃO EXISTIU!
    Acompanhe debate nos Irreligiosos.

    Abbs
    Oice

  2. Raul Galdino disse:

    Olá, Tyrannosaurus Rex.

    Conheci seu site hoje, sou cristão e achei seus textos muito interessantes (pelo menos, os pouquíssimos que eu li até agora). Infelizmente, percebo um certo preconceito, ou melhor, uma certa ignorância a respeito dos cristãos, de Jesus e de outros assuntos relacionados, além de um pouco de deboche; mas, excetuando-se essas observações, seus textos são muito bons.

    Só para citar aqui um exemplo da sua ignorância, do seu desconhecimento: a divindade de Jesus e a trindade de um deus único não foram criados no Concilio de Niceia. Essas ideias foram publicadas no livro de João, escrito no século I (e, portanto, dois séculos antes do tal Concílio). Talvez, você tenha dito essas coisas por não reconhecer que os livros do Novo Testamento tenham sido escritos no século I ou por achar que tais livros foram adulterados no Concílio de Niceia (note que eu não estou discutindo o conteúdo da Bíblia, isto é, a veracidade das declarações; estou comentando da datação de documentos históricos, independentemente se seus autores escreveram fatos ou fábulas).

    A arqueologia tem provas tanto das datas (aproximadas) em que os livros que constituem a Bíblia foram escritos, quanto de diversos fatos narrados na Bíblia, inclusive a existência, a morte e a ressurreição de Jesus (a divindade de Jesus já é outra história: não cabe à arqueologia, tampouco a nenhuma ciência. Só se acredita pela fé). Se você acredita ou não nas provas da arqueologia, a decisão é sua (a decisão é sempre nossa de crer ou não em uma prova, seja ela de uma religião, de uma filosofia ou de ciência como arqueologia, história, antropologia, física, biologia etc.).

    Para quem quer raciocinar porque os 66 livros da Bíblia cristã não foram adulterados desde quando foram escritos, sem precisar buscar a verdade científica na arqueologia, assistam (dividido em 3 partes):







    Com relação aos Cristãos, você tem uma ideia totalmente errada. Ao contrário do que muitos pensam, o Cristianismo não surgiu em Roma (muitos acham que o Cristianismo surgiu em Roma e se fragmentou na Idade Média, com a Reforma Protestante). Todas essas doutrinas adotadas pelo Império Romano e todo esse sincretismo religioso feito por Constantino não criou o Cristianismo, mas sim o Catolicismo. Ora, de onde vem o chefe máximo da religião católica? Não é do Império Romano?!

    Os cristãos já existiam desde o século I e sua história está totalmente desvinculada do Catolicismo. Por terem elementos parecidos, muitos confundem e tratam como se fossem a mesma história e pensam que fazem parte de uma mesma religião, mas isso é outro assunto…

    Embora tenha ocupado a maior parte do meu texto, eu não vim falar de religião, mas sim comentar sobre o tema do texto: o natal. Já conhecia essa história do natal (muito bem contada por você, por sinal), e também conheço outras, como a do papai Noel, a da árvore de natal, a das velinhas do bolo de aniversário, dentre outras.

    Originalmente, nenhum cristão era adepto de nada disso (eu, particularmente, não comemoro o natal). Mas, infelizmente, talvez por influência do catolicismo (que, a meu ver, é um sincretismo entre o Cristianismo e algumas religiões politeístas dos gregos e dos romanos), os cristãos acabaram “sincretizando” algumas dessas ideias também. E hoje em dia é raríssimo encontrar um cristão que não comemore o natal.

    • Tyrannosaurus disse:

      Olá Raul,

      Obrigado pelos elogios mesmo que poucos.

      Só para citar aqui um exemplo da sua ignorância, do seu desconhecimento: a divindade de Jesus e a trindade de um deus único não foram criados no Concilio de Niceia. Essas ideias foram publicadas no livro de João, escrito no século I […]

      Antes de publicar um texto eu faço pesquisas e sempre procuro citar as minhas fontes em notas no texto ou abaixo. Por gentileza, indique links para documentos onde eu e outros leitores possamos verificar essas informações dadas por você.
      A Bíblia não é um documento histórico, é um livro cujo conteúdo foi alterado, adaptado e forjado ao longo dos séculos.

      • Raul Galdino disse:

        É preciso MUITA FÉ para crer que a Bíblia foi alterada, adaptada e forjada ao longo dos séculos (você assistiu aos vídeos cujos links postei acima?)!

        Sobre os relatos históricos (não confundir com os relatos teológicos) contidos na Bíblia, eu não conheço documentos confiáveis que estejam disponíveis na Internet, atestando (ou até mesmo contestando), para que eu possa citar links, mas existem livros (que são bem mais confiáveis que a Internet).
        Eu, particularmente, não gosto de história e não possuo nenhum livro histórico sobre a Bíblia (nem sobre qualquer outra coisa), para que eu possa sugerir como leitura dos seus estudos. Eu até poderia pesquisar alguns e indicá-los aqui, mas seria perda de tempo da minha parte, porque você não iria lê-los, e mesmo que os lesse, não iria acreditar.

        Deixo aqui um link com uma entrevista de um pós doutorado em arqueologia falando um pouquinho sobre o assunto (note que este vídeo não é nenhum documento, mas apenas um comentário sobre a existência de documentos):


        • Tyrannosaurus disse:

          É preciso MUITA FÉ para crer que a Bíblia foi alterada, adaptada e forjada ao longo dos séculos […]

          Eu não sou especialista em história ou arqueologia, por isso deixo para os especialistas a missão de determinar quais documentos são considerados documentos históricos confiáveis e quais não são. A bíblia não é considerada um documento histórico pelos especialistas. Se você é especialista no assunto e acha que pode provar que seus colegas especialistas estão errados então não é para mim que você tem que provar isso mas para eles. Eu trabalho com as informações de que disponho no momento.

          Eu, particularmente, não gosto de história e não possuo nenhum livro histórico sobre a Bíblia

          Bem, se você também não é especialista então é bastante suspeito que você tenha optado por considerar verdadeira a hipótese considerada falsa pela maioria dos especialistas. Essa escolha sugere que você não é imparcial.

          […] mas seria perda de tempo da minha parte, porque você não iria lê-los, e mesmo que os lesse, não iria acreditar

          Não sendo especialista eu considerarei plausíveis os argumentos dados pela maioria deles.

          Deixo aqui um link com uma entrevista de um pós doutorado em arqueologia falando um pouquinho sobre o assunto[…]

          Eu procurei referências sobre o Dr. Rodrigo Silva, seus trabalhos publicados, etc, inclusive pelo Google Acadêmico, e não encontrei nada sobre ele. As únicas menções a essa pessoa estão em sites religiosos.

          Visto que você não logrou demonstrar que as informações nas quais se baseia meu texto são incorretas, ele permanece inalterado. (Sim, se alguém demonstrar que as informações não estão corretas eu alterarei o texto, isso já aconteceu uma vez em outro texto).

  3. Menezes disse:

    Olá TR.

    Interessante esta analogia dos planos de Constantino….

    …Ops….Seria possível uma analogia semelhante referente ao momento do plano PSDB em relação ao PT ?

    Não gostei nada daquela espécie de concílio que houve entre FHC e LULA antes da posse.

    Por favor, diga que não se corre o menor risco de semelhante erro!!

    … E não me venha com Wishful Thinking…..

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